Até 2020, pelo menos cinco milhões de empregos vão sumir do mapa. Segundo relatório do Fórum Econômico Mundial, os avanços tecnológicos farão com que algumas funções sejam desempenhadas cada vez mais por máquinas, computadores e robôs. Como agravante, tradicionais setores que empregavam grande contingente já não o fazem. Há ainda aquelas profissões com risco de extinção. E a crise só contribui para deixar o cenário mais nebuloso. Neste contexto, como saber se e quando é hora de mudar os rumos profissionais?

Christian Barbosa, CEO da TriadPS, multinacional especializada em programas e consultoria na área de produtividade, colaboração e administração do tempo, vai logo avisando: “Se você está vendo que seu emprego ou profissão não vai, literalmente, existir nos próximos anos, tem que, nesse momento, já fazer mudanças. Tem que ter um plano de ação de no máximo médio prazo”.

No plano, cursos de aprimoramento, congressos e feiras para ficar por dentro das tendências. Barbosa enfatiza a necessidade de identificar outras profissões ou áreas de atuação com os quais teria afinidade antes de qualquer guinada. Vale procurar na web, conversar com outros profissionais, visitar outras empresas das novas áreas de interesse. Ter clareza quanto ao próprio perfil – analítico, de relacionamento, visionário ou empreendedor – encurta o caminho da recolocação no mercado de trabalho.

Supervisora de Carreira do Ibmec/MG, Cynara Bastos diz que é fundamental fazer uma reflexão aprofundada diante da situação, conflitante e desafiadora. “Vale avaliar se é uma situação momentânea ou definitiva. E antes de escolher um segundo curso é preciso verificar a probabilidade de inserção no mercado de trabalho”, afirma, referindo-se às dúvidas de muita gente sobre a necessidade e a importância de uma nova graduação como forma de “cavar” novas oportunidades.

Para Daniela do Lago, especialista em comportamento organizacional e coach de carreira, a melhor forma de identificar a necessidade da mudança é responder a questões do tipo: gosto de fazer o que estou fazendo agora? Vejo-me exercendo a mesma tarefa nos próximos cinco anos? Ficaria feliz mudando de área na mesma empresa? Vale a pena? Ficaria feliz se me oferecessem uma promoção? Interesso-me por outro departamento na empresa atual? Identifico-me com meus colegas e com o meu local de trabalho? “Se a resposta para todas as perguntas acima for negativa, talvez seja mesmo a hora de pensar em mudanças”, observa. Se a opção é voltar para a faculdade, vale ressaltar a dica dos especialistas em recolocação profissional: fuja do chamado “efeito manada”, quando muitos escolhem uma profissão que está na crista da onda.

Avaliar o retorno financeiro e como está a absorção dos profissionais pelo mercado são pontos essenciais na escolha de um novo rumo ou curso. “Quem fez só o segundo grau está perdendo espaço para as máquinas. É preciso ir para a faculdade buscar uma formação acadêmica. E aqueles que já têm uma graduação devem buscar um outro diploma, uma pós ou um MBA para obter conhecimentos diversificados”, diz o presidente do International Coach Federation (ICF), Gilvan Silva.

Para a professora Elma Santiago, especialista em Carreiras e coordenadora do curso de graduação em Administração da Faculdade IBS/FGV, o retorno à vida universitária mostra a necessidade de adaptação a um mercado cada vez mais competitivo e multidisciplinar, onde já não há espaço para formações muito específicas. É como se a pessoa tivesse que saber de tudo um pouco. “É uma tendência as pessoas procurarem uma nova qualificação. Acabou aquela história de ser especialista numa única área. Hoje é o inverso. O universo corporativo exige que o profissional transite em várias áreas. Não basta ser turismólogo, por exemplo. Tem que saber sobre gestão negócios e pessoas”, diz. 

Guinada profissional levou em conta o retorno à faculdade

Formada em Turismo pela PUC Minas há 14 anos e com mestrado em Cultura e Turismo pela Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus, na Bahia, única do país que ministra o curso, Letícia Rodrigues Antunes, 36, já não tem mais esperanças de trabalhar na área. Sem lugar no mercado, se prepara para fazer um novo vestibular, provavelmente em Administração. 

Desapontada com a carreira de jornalista, Carolina Coutinho, 34, deu adeus à antiga função e hoje comemora o diploma de arquiteta, conquistado no fim de 2015. Assim como elas, trabalhadores que estão vendo a profissão em apuros têm buscado uma segunda graduação. 

De acordo com a psicóloga e professora da Faculdade Newton Paiva, Arlete Santana Pereira, relatos semelhantes são ouvidos com frequência no consultório. “As mudanças no século 21, principalmente no que diz respeito à informatização, trouxeram nova dinâmica às profissões. Muitas perderam ou estão perdendo o sentido”, diz ela, mestre em Desenvolvimento Humano. 

“Já trabalhei em projetos no governo, mas com a crise o orçamento foi ficando menor. Também dava aula nas faculdades de Turismo, mas os cursos foram fechando porque o mercado não estava absorvendo os profissionais. Fiquei sem mercado. E é com grande tristeza que vejo meu sonho morrer”, lamenta Letícia, que planeja fazer Administração no ano que vem.

Com o canudo na mão e o novo emprego em um escritório de arquitetura, Carolina Coutinho está feliz da vida. “Tenho certeza de que fiz a escolha certa. Com menos de um ano de formada já ganho muito mais do que no jornalismo”, diz.