No filme “Joaquim”, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas, Tiradentes perde a cabeça duas vezes. A primeira foi importante para a construção da própria consciência política, com um alferes se deixando seduzir pela ideia de revolta, gerada após uma grande paixão por uma escrava africana, que, na narrativa, leva o nome de Preta.

Com a fuga dela, Joaquim fica transtornado e passa a buscar incessantemente ouro para poder comprar a escrava, mas depois que a encontra num quilombo e enxerga todas as fraturas sociais no Brasil do século 18, ele muda o pensamento sobre a Coroa Portuguesa. Essas informações não estão em nenhum livro de História.

Partiram do diretor pernambucano Marcelo Gomes, que abre o filme com a imagem da cabeça do mártir – único a ser morto entre os inconfidentes – falando, de forma um pouco irônica sobre a proximidade com Jesus Cristo, arquitetada pelo regime militar nos anos de 1970. “Não queria um filme que fosse uma novela histórica. Meu cinema é mais próximo da crônica”, explica o cineasta ao Hoje em Dia.

Ele fez um filme que não busca somente apresentar um novo olhar sobre a figura de Tiradentes. O diretor de longas como “Cinema, Aspirina e Urubus” e “O Homem da Multidão” recorre ao passado para falar do presente. Como no momento em que o alferes elogia excessivamente os EUA como uma nação que preza a liberdade de pensamento e a igualdade.

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“Fiquei perplexo quando li a constituição americana, que falava que nas 13 colônias deveriam prevalecer os direitos individuais, com todos os homens sendo iguais. O filme se passa no século 18, mas foi feito no Brasil de 2017. O artista é um homem de seu tempo, de onde recebe as influências”, destaca Marcelo, que teve o filme apresentado na seção competitiva do Festival de Berlim, em fevereiro.

É a primeira vez que Tiradentes é mostrado dessa forma num filme, como um personagem ambíguo, exibindo interesses próprios (a não promoção) como razão para entrar para a Inconfidência Mineira. Como você chegou a esse registro?
Gosto de fazer coisas sobre as quais eu não entendo. Se eu compreendo muito bem, não me interessa fazer (um filme). No cinema a gente descobre coisas para a nossa existência. Cinema me ensina muitas coisas. Quando li as diferentes biografias sobre Tiradentes e livros com narrativas sobre a sociedade colonial brasileira, me interessei por esse brasileiro comum, um alferes da Coroa Portuguesa, que mudou de paradigma e se transformou num rebelde, numa época de nossa história em que a sociedade vivia de forma cruel e desumana, que exterminava indígenas e levava os africanos à condição de escravos, explorando a riqueza do país e levando-a para Portugal. Foi aí que decidi contar essa história. Mas outra questão era como contá-la. Meu cinema é mais próximo da crônica, do documental, e quando tive contato com essas narrativas sobre o caldo cultural das Minas no século 18 incorporei esses relatos de como viviam, de como tomavam banho, de como se relacionam, de como viajavam... O resultado é a construção da consciência política de um soldado no período colonial mostrada na forma de crônica. Não queria um filme que fosse uma novela histórica.

O que chama a atenção também no filme é o retrato de um Brasil em formação no que diz respeito à sua identidade, já que você faz questão de mostrar várias línguas dominantes, como o português e idiomas indígenas e africanos. Essa confusão linguística diz muito sobre nosso país, não?
Quando se descobriu o ouro nas Minas, mudou-se todo um pensamento em relação ao Brasil, de como colonizar essa região. Descoberto o ouro, promoveu-se uma corrida massiva, com pessoas de várias origens e culturas. Cerca de 200 mil pessoas foram para Minas Gerais, desbravando-se matas impenetráveis como as que vemos no filme. Eram índios da língua tupi e guarani, africanos com seus diferentes dialetos, portugueses abrasileirados, portugueses com acentos... Na hora de construir o elenco do filme, busquei essa diversidade de cores e sotaques, que é o que originou o Brasil daquela época. Nascemos como nação a partir daí. Quando li sobre o Brasil colonial, eu compreendi melhor as fraturas de nossa sociedade. É importante para compreender o presente. O passado está vivo dentro do presente. 
 

Marcelo Gomes

“Joaquim” também é muito crítico em relação aos demais inconfidentes, mostrados com um grupo burguês que, como o governo português, só tinha olhos para o ouro.
A elite que se formou naquela época aprendeu muito com a elite portuguesa, que foi um espelho para a ela. Infelizmente, isso se perpetua até hoje, com nossa elite se parecendo com a do Brasil Colônia, infelizmente, desaguando na injustiça social. No século 18, a região das Minas se constitui como uma região de grande riqueza, por conta do ouro e do diamante. E o que se viu foi o surgimento de um grande contingente de miseráveis ao redor de uma pequena elite.

Como foi a construção da cena final, uma das mais potentes do cinema brasileiro recente, em que Tiradentes está na mesma mesa dos inconfidentes, experimentando comida farta e visto como uma espécie de fantoche?
Tem uma coisa importante que é a gênese do herói. Uma pessoa não decide ser um herói. Isso acontece. É com sua experiência de vida que se constrói um mito heróico. Se Joaquim teve essa mudança de paradigma foi porque conviveu com esse lado mais cruel da sociedade, a partir da paixão pela (escrava) Preta e sua ida a um quilombo, gerando uma profunda revolta. Foi isso que o atraiu para um grupo de pessoas que estava lutando contra a Coroa, querendo uma mudança de poder. O que questionamos é o fato de uma elite política estar muito ligada a uma elite econômica.

Há relatos de que Tiradentes defendia uma revolução com muito sangue, como defende no filme?
O abade Reinaldo escreveu sobre isso. Certamente os inconfidentes falavam disso. No filme, eu coloco essa questão na boca do Joaquim. Documentos sobre Tiradentes na época são muito poucos, resumindo-se à certidão de nascimento e aos autos de devassa. Depois que ele foi enforcado, o Brasil virou império com Dom Pedro I e Dom Pedro II. Na República, construiu-se a partir dele um herói. Como se passou tanto tempo, os historiadores criaram diferentes versões. Para alguns, Joaquim foi o único representante da classe média dentro do grupo. Para outros, era um bode expiatório. Tudo isso é muito rico para uma história ficcional no cinema. Cinema é mentira, mas uma mentira que nos aponta muitas verdades. Para mim, essa decisão de rebeldia surge da visão de uma sociedade cruel, de seu contato com o quilombo. Falam muito na música, na comida, na capoeira e na religião como contribuições africanas à nossa cultura, mas eles também trouxeram a ideia de revolta, lutando contra o domínio dos colonizadores.

Tiradentes era um dos poucos heróis de nossa história, criado pela República principalmente...
Ele era um homem comum. Foi a ditadura, nos anos 70, que trouxe essa imagem de Tiradentes como Jesus Cristo, mitificando-o. Para mim, um cidadão comum pode ter atos heroicos. E, sim, foi um herói porque foi o único a perder a cabeça, entregando a sua vida à Coroa. Ele morreu pela causa. Outro elemento que é muito nobre dele foi, próximo à sentença, ter assumido toda a culpa da conspiração, enquanto os outros inconfidentes negaram.

Eu ia completar a questão perguntando se somos um país sem heróis e quem seriam os heróis de hoje...
Foi Brecht quem disse triste o país que precisa de heróis. É preciso conhecer melhor as revoltas que tivemos em nossa História, como a insurreição pernambucana, a balaiada, a revolta dos malês, essa comandada por escravos de origem muçulmana. Entender esses momentos nos ajudará a construir um país melhor, com mais justiça social.