Ilvio Amaral não para. Em Belo Horizonte, ele dirige os ensaios de duas peças que estrearão em breve, além de estar em cartaz com “Essa Herança é Minha”. Tudo o que faz, porém, tem por perto o fantasma de “Acredite, um Espírito Baixou em Mim!”, apresentado em 1998 e um dos grandes fenômenos do teatro nacional.

Na peça, Ilvio interpreta o fantasma de um homossexual que assume o corpo de um machão. O sucesso foi tão grande que ganhou versão para cinema, em 2005. “Quando fizemos os dramas, as pessoas que iam ver esperando a mesma coisa falavam que não podíamos fazer este tipo de espetáculo. Como não pode? Tem que poder”, avisa.

Para ele, é uma questão de aproveitar o momento em que ainda tem forças física e psicológica para se aventurar em outros formatos. O que não impede de sonhar com uma nova versão cinematográfica de seu maior sucesso. Após filmar com a diretora Cininha de Paula, a ideia ganhou corpo. “A coisa está rondando por aí, quem sabe”, faz mistério. Momento oportuno para comemorar as duas décadas do espetáculo.

Prestes a completar 20 anos, a peça “Acredite, um Espírito Baixou em Mim!” ainda continua no repertório da Cangaral, como um dos maiores sucessos do teatro brasileiro. Como explicar esse fenômeno, a ponto de as pessoas retornarem dezenas de vezes para vê-la?
Acho que não se explica. Ele é um espetáculo que não tem limitação de idade, de tipo de público, de Estado... Pode ser montado tanto na zona norte, no Shopping Estação, como num Palácio das Artes e vai lotar do mesmo jeito. O “Espírito” não tem um público específico. Ele venceu essa barreira, sabe? Virou uma coisa que ninguém mais explica. Se soubéssemos, aliás, não iríamos fazer nada mais do que um “Espírito” toda vez. Mas ninguém sabe os ingredientes que caem no gosto popular. Claro, a peça tem algumas coisas bem interessantes, como falar do preconceito e da vida além da morte. As duas coisas juntas na comédia. Acredito que tenham sido ingredientes fundamentais para o sucesso, além do roteiro redondo e a direção bem construída. Uma coisa muito importante é o frescor do espetáculo. É sempre uma alegria muito grande quando a gente entra em cena. Entramos com uma energia cada vez mais renovada.

Como é revisitar um personagem por tanto tempo?
Eu acho maravilhoso. Adoro fazer. Algo que sempre foi importante para mim é fazer o mais simples possível. Apesar de sentir o mesmo frio na barriga toda vez que entro em cena, essa simplicidade me gera uma certa tranquilidade. E não vou ser cínico, tem a questão do dinheiro, do retorno financeiro. “Espírito” tem uma boa resposta de público. Sou reconhecido na rua. Tenho muita satisfação e respeito por esse trabalho, porque vejo que estou ajudando as pessoas a saírem da depressão, mesmo que por uma hora e meia, a ficarem alegres, a esquecerem os problemas. Isso lhe traz uma energia, faz com que melhore a cada espetáculo... Eu me emociono ao falar disso. É uma coisa muito bonita. Sou um privilegiado.

 

“Cinema é muito caro. Cineastas reclamam que fizeram um longa só com R$ 3 milhões. Com esse dinheiro, faria umas seis peças maravilhosas” (risos)


Esse carinho do público também não acaba atrapalhando, já que existe uma cobrança do espectador para ver o mesmo tipo de humor?
É uma coisa muito estranha. Sempre querem um “Espírito 2” e não vão ver (risos). O Ronaldo Ciambroni (autor do texto original) até escreveu uma continuação, mas a questão é que a gente tem sede de outra forma de atuação, de uma coisa diferente para fazer. Quando fizemos os dramas, as pessoas que iam ver esperando a mesma coisa falavam para nós que não podíamos fazer este tipo de espetáculo. Como não pode? Tem que poder, querer, experimentar. “Essa Herança é Minha”, que estreamos há pouco, tem um nível de comicidade diferente, parecido com o de "Quem Tem Medo de Itália Fausta?”, terceira peça que eu e o Maurício (Canguçu, parceiro na Cangaral) fizemos juntos. Tem uma coisa de besteirol, com a gente exagerando milhões de coisas para fazer paralelos com o que está acontecendo no país, em que todo mundo tenta tirar proveito de uma situação. Deixamos de morar num país tropical abençoado por Deus. Em determinado momento do espetáculo eu grito “Fora Temer!” e todo mundo aplaude em cena aberta.

A ideia de fazer uma continuação de “Acredite, um Espírito Baixou em Mim!” está totalmente descartada?
O texto foi escrito há mais ou menos dez anos. Ele começa com todo mundo chegando ao céu, que parece com um estúdio de TV, em que cada um assume o corpo de um integrante da Jovem Guarda, como Roberto Carlos, Vanderléia, Erasmo... Mas queremos falar de outras coisas, temos que aproveitar que ainda temos forças física e psicológica.

E no cinema? O filme feito em 2005 foi considerado um fracasso.
Tem um engano aí, pois uma reportagem da “Folha de S. Paulo” da época falava que dos dez filmes brasileiros mais vistos no ano estavam nove da Globo Filmes e outro de uma tal Cangaral. “Espírito” foi muito visto em Belo Horizonte, muito mesmo. Quando levamos para Sampa, foi um fiasco. O filme tem um problema técnico sério. Quando o fizemos, a Cangaral ficou responsável pela parte artística, conseguindo algumas estrelas a partir do nosso bom relacionamento, e a FAM com a parte técnica, que acabou ficando uma porcaria. Tanto que o filme está suspenso. Nós mesmos não o temos. Se alguém fica interessado em ver, a gente recomenda que não vale a pena. A Cininha de Paula, diretora de “Duas de Mim”, comédia que participei, deu a ideia de refazer. A coisa está rondando aí, quem sabe. Na verdade, não fechamos nenhuma porta. E não estamos também abrindo porta para isso.

 

O ‘Espírito’ não tem um público específico. Ele venceu essa barreira, sabe? Virou uma coisa que ninguém mais explica”

 

Por falar em “Duas de Mim”, em que faz um dono de restaurante que participa de programa no estilo “Master Chef”, você nunca teve uma atuação efetiva no cinema. Por que?
Falta de oportunidade mesmo. Aqui em BH tem muitos grupos de cinema, mas ninguém me chama. Nem mesmo para teste. Helvécio Ratton faz tanta coisa, por que não me chama? Não sei se é por causa de “Um Espírito”... Engraçado, porque fiz mais filmes fora daqui, como Fortaleza e Rio de Janeiro. Gostaria de conviver mais com o cinema, que é uma arte que me fascina muito. Produzir fica difícil. Já pensei em fazer algo com “A Idade da Ameixa”, mas com mulheres. O problema é que cinema é muito caro. Cineastas reclamam que fizeram um longa só com R$ 3 milhões. Com esse dinheiro, faria umas seis peças maravilhosas (risos).


Como você vê este momento do teatro em que stand-up virou sinônimo de comédia?
Pois é, estou muito impressionado. Eu e o Maurício temos um amigo produtor de São Paulo. Ele pediu a nossa ajuda para produzir a vinda de Tiago Ventura, que eu nunca tinha ouvido falar, para BH. Fizemos duas sessões lotadas no Cine Brasil. Fui ver o espetáculo dele, que é muito simples, e o público morre de rir. O que dizer disso, meu Deus? É o que o público quer. Em outra época, as pessoas só queriam gente da televisão. Hoje é o stand-up. Não posso dizer que o teatro está acabando. A dramaturgia sempre vai existir.