Propaganda? Nem pensar. A divulgação em redes sociais não passa de um site que não é atualizado há anos. Mudanças no produto, como novas embalagens e ampliação de sabores, foram raríssimas em mais de seis décadas. Tudo continua praticamente do mesmo jeito de quando Milton Ponce criou os biscoitos Globo.

E é justamente o fato de continuar igualzinho que faz com que continue sendo um campeão de vendas, saboreado nas praias e engarrafamentos cariocas como uma espécie de salvador, aliviando a fome e a tensão, sem pesar no bolso e no estômago. É essa história que Ana Beatriz Manier conta no livro “Ó, o Globo” (Editora Valentina, 176 páginas, R$ 39,90).

“A primeira geração faz questão de continuar essa tradição e a segunda pretende manter isso também. Eles gostam dessa coisa mais low profile”, observa a biógrafa do biscoito, ícone da cultura carioca. Ela destaca que a administração é 100% familiar, “renegando qualquer função importante para quem é de fora do clã”.

Para conseguir falar com eles, Ana Beatriz teve que esperar uma brecha na agenda de “Seu Milton”, de 77 anos, que até há pouco tempo levava os saquinhos de 70x90cm para vender na praia e punha a “mão na massa”. Aliás, o segredo do sucesso do Globo está aí, preservando a feitura manual na hora do ponto final.

“Imagine a loucura que é a produção parar (as outras etapas são automatizadas) todo dia para que os funcionários façam o ponto a mão? E o fazem para não perder a leveza. O diferencial do biscoito é esfarelar fácil, ser mais leve”, registra Ana. E o mais incrível é que da fábrica saem cerca de 15 mil saquinhos por dia.

Cada um deles é montado em oito segundos, em média. Velocidade só comparável à rapidez como ambulantes surgem “do nada” quando as ruas enchem de carros e o trânsito quase pára. Tanto é assim que surgiu uma lenda urbana de que eles usam túneis subterrâneos. “Em cinco minutos, eles já aparecem”.

Em números, os ambulantes vão de 300 a 500, dependendo do dia. É que os donos do Globo se valem da previsão do tempo para orientar as vendas. Se chover, priorizam escolas, mercados e bancas. Com tempo azul, a praia é toda deles. “Parte do sucesso também se deve ao fato de estar no lugar certo, na hora certa”, salienta a escritora.

Ideal na praia, segundo Ana, por sua leveza, para quem não quer almoçar, fazendo uma combinação perfeita com a cerveja gelada. E na hora do rush, pode ser um santo remédio para a irritação. “Quando o motorista vê o ambulante, é um alento. Acaba sendo uma distração, desligando-se um pouco daquele estresse”, observa.