Eiko Senda já foi Norma, há 20 anos. Mas era num concerto, em que só se preocupava em soltar a voz. Na montagem da Fundação Clóvis Salgado, que estreia hoje no Grande Teatro do Palácio das Artes, o retorno à ópera de Bellini se transformou num “trabalho intensivo e doloroso”, com a solista japonesa tendo que buscar memórias do passado.
 
Líder política e religiosa do povo druida, aconselhando-os sobre os conflitos com os romanos, Norma é uma espécie de bússola moral. “Pensei no Brasil na hora. Há muita coisa parecida com o que está acontecendo no país, especialmente no que diz respeito à corrupção”, observa Eiko, num português muito fluente, um dos oito idiomas que domina. 
 
Ela morou no Brasil por dez anos e teve duas filhas em terras tupiniquins. Hoje reside no Uruguai, mas sempre se manteve atualizada do que estava acontecendo aqui. O que a faz uma entusiasta das mudanças promovidas na ópera pelo diretor cênico Pablo Maritano, para torná-la mais atual, como o deslocamento temporal – do ano 50 antes de Cristo para 3869.
 
“Hoje em dia, os diretores cênicos estão tendo maior liberdade, buscando produções mais vivas. Públicos mais tradicionais podem até questionar, mas eu tenho achado muito bom. A mudança ajudou muito na compreensão da personagem. Na época do libreto, as mulheres não podiam se divorciar, abortar... Hoje nós temos direitos”, destaca.
 
Polêmicas
Eiko lembra de uma montagem de “Macbeth” no teatro Colón, em Buenos Aires, em que toda a história foi transferida para uma ditadura latino-americana do século passado. Resultado: vaias. Os produtores de “Norma” não esperam que o público chegue a tanto, mas o argentino Pablo defende que polêmicas são muito boas para a ópera.
 
Na direção de arte, a ópera “Norma” exibe muitas referências à cultura pop, como a série da HBO “Game of Thrones”, sobre povos medievais, e os filmes da franquia “Mad Max”, passado num futuro distópico
 
“Praticamente todas as mais famosas foram um escândalo em sua época. Polêmica é um bom sinal”, registra o diretor cênico. Para ele, tanto a encenação localizada no passado como a no futuro são a mesma coisa: fantasia. “Aliás, toda a ópera é fantasia. Mozart não buscava fazer uma reconstrução histórica em suas óperas sérias”, destaca Pablo.
 
Para o argentino, o conceito de tradição numa ópera é um pouco menos complexo. “A tradição muda o tempo inteiro. Quanto mais pesquisa há sobre o material original, procurando trabalhar com a gênese da ópera, mais pessoal seremos”, salienta. Para ele, a única forma do gênero manter a tradição é por meio da transformação. “O que não se movimenta, está morto”.
 
Serviço: “Norma”, ópera de Bellini, no Grande Teatro do Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1537). Hoje e nos dias 25, 27 e 29, às 20h, e dia 23, às 19h. R$ 60 e R$30 (meia)
 
‘O que encanta nos personagens é que eles são humanos’, avalia maestro Silvio Viegas
 
Como um dos representantes da escola Bel Canto, ao lado de Donizette e Rossini, Bellini valoriza em “Norma” a beleza do canto, um dos pontos altos de sua trajetória. “A atuação do cantor busca valorizar a melodia. O solo é algo fundamental para que a ópera se desenvolva”, sublinha o maestro Silvio Viegas, que assina a direção musical.
 
Ele adianta que Pablo reforça essa qualidade, trabalhando todos os personagem com profundidade. “Por isso o elenco foi escolhido a dedo. Os solistas são maravilhosos, encontrando a correta expressão tanto melódica quanto dramática”, analisa Silvio, que vê grande atualidade no tema de “Norma”.
 
“Uma grande líder religiosa, militar e diplomát]ca admite que está mentindo para o seu povo, privilegiando os seus interesses. Não há nada mais atual do que isso no Brasil. O diferencial dessa ópera é a relação de poder. E o que encanta nos personagens é que eles são humanos. O único mal talvez seja a corrupção dos sentimentos”, analisa.