“Já não sei mais onde estou”, diverte-se o escritor Mia Couto, poucos minutos após desembarcar em Belo Horizonte, cidade que recebe o moçambicano hoje, na Casa Fiat de Cultura, para a divulgação de seu mais recente livro, “O Bebedor de Horizontes”, lançado no Brasil pela Companhia das Letras.
 
A brincadeira com a ausência de localização geográfica, além de indicar a turnê nacional de divulgação que o autor vêm fazendo, tem possível conexão com o tema da palestra que Couto, um dos maiores nomes da literatura portuguesa contemporânea, ministrará, a respeito de esquecimentos. 
 
Mas não são as simples falhas de memória que mais lhe interessam. Ao Hoje em Dia, o escritor fala de uma amnésia coletiva provocada por interesses políticos. “A História vem sendo parcialmente apagada, trocando narrativas por ficcionalizações”, analisa o escritor, para quem a tecnologia representa uma falsa ideia de um mundo em constante progresso.
 
“Esquecemos que uma boa parte da humanidade vive em condições de miséria e precariedade. Hoje falamos de escravatura como se fosse coisa do passado, mas possivelmente estamos vivenciando um momento de escravidão ainda maior, com mais de 45 milhões de pessoas nesta condição”, salienta.
 
Ainda citando regressões de diversas ordens, Couto lembra que os piratas, personagens que parecem surgir apenas em filmes de capa e espada, estão gerando grandes prejuízos as companhias que transportam mercadorias por navios. “E a peste negra, que era algo ligado à Idade Média, está presente em Madagascar e, provavelmente, no meu país”.
 
Para o autor, existe um forte direcionamento para se lembrar de certas coisas e se esquecer de outras. Um bom exemplo disso é a questão dos refugiados no mundo. “Fala-se muito na Europa como destino destas pessoas, mas ninguém falou que milhões de refugiados moçambicanos foram para países pobres africanos”, pontua.
 
Na palestra, o escritor também abordará a pesquisa realizada para “O Bebedor de Horizontes”, livro que encerra a trilogia histórica “As Areias do Imperador”, sobre os derradeiros dias do chamado Estado de Gaza, o segundo maior império africano.
 
De acordo com Couto, os quase 50 anos de independência moçambicana levaram o país a querer conhecer mais o seu passado, antes eclipsado pela versão oficial portuguesa. À prosa característica do escritor, presente em contos e romances, ele incorpora a preocupação com a fidelidade histórica. “Meu trabalho de pesquisa se desenvolveu em dois caminhos: o da documentação portuguesa e o da oralidade, a partir das memórias das populações rurais, o que levou a um interessante conflito de versões”, destaca Couto.
 
Serviço: Palestra “Políticas da Memória no Tempo Presente” e lançamento do livro “O Bebedor de Horizontes”, com Mia Couto. De 19h30 às 21h, na Casa Fiat de Cultura (Praça da Liberdade, 10, Funcionários). Entrada franca (distribuição de senhas a partir de 18h30).