Desde a última semana, imagens de obras como estas que você vê espalhadas na capa deste caderno, vêm circulando por meios atípicos, como grupos de WhatsApp e redes sociais. Tal contexto, infelizmente, não parece se dar por um súbito interesse do público por artes visuais ou pelo trabalho dos autores (Pedro Moraleida, Marta Neves, Randolpho Lamonier e Desali) que as assinam.

Aberta à visitação desde o dia 1º de setembro, no Palácio das Artes, a exposição Arteminas abriga estas obras. Mas apenas na última semana, ela se tornou tema de um escarceú midiático construído por políticos, que sob acusações como escárnio à fé religiosa, tem se movimentado em torno de censurá-la.

Desde então, o Palácio das Artes tem vivido dias movimentados: segundo sua assessoria, a (alta) média de visitação da exposição este final de semana foi de 700 pessoas; entre elas as visitas ilustres de nomes como Caetano Veloso, no domingo, e do prefeito Alexandre Kalil. Ontem foi palco também de uma nova manifestação à favor das obras e dos artistas.

Curiosamente, o foco central desta cizânia recaiu sob a obra de Pedro Moraleida, falecido em 1999, sendo que as demais obras também têm sido alvo de uma campanha difamatória, onde termos como “pedofilia”, “pornografia” e “apologia às drogas” tem sido ignorantemente (porque tirados do contexto artístico) usados para descrevê-las. “Moraleida é tema de uma exposição maior, está na porta de entrada da mostra e de alguma forma representa o eixo curatorial. Isso acabou a evidenciando”, acredita Randolpho Lamonier. “Mas existem outras ações criminosas acontecendo.

Coletaram imagens de nossos trabalhos sem nossa autorização e estão criando vídeos que circulam via internet. Estamos nos sentindo muito vulneráveis, sendo atacados, precisamos de mais movimentos de defesa à nosso favor”. “Trata-se de uma confusão grande, uma desinformação abusiva”, diz Marta Neves. “É triste, porque meu trabalho já chega associado diretamente a esta censura”, acredita Desali. “O olhar que o alcança chega carregado de repulsa”.

Motivações

Embora a exposição de Moraleida esteja sendo o “campo de batalha”, o nome de todos está em jogo, inclusive o do projeto Arteminas, programa da Fundação Clóvis Salgado de estímulo as artes visuais, já que, segundo Lamonier, o mote dos políticos não é apenas o fechamento da exposição. “O programa está correndo riscos. Existe um movimento nas redes sociais de grupos religiosos que considero extremistas, incitando violência direta contra os artistas e as obras: ‘Tem que quebrar, tem que matar’. Nos três estamos diretamente envolvidos nisso”. Neves amplia a questão. “É curioso, porque estamos sendo acusados conjuntamente, mas sem a mesma divulgação”, aponta. “Dividimos o ônus, mas sem a mesma exposição. Porque eu quero que as pessoas vejam meu trabalho, mesmo para xingarem”.

A tentativa de censurar a exposição se materializou em uma “manifestação” acontecida na última quinta-feira, na porta do Palácio das Artes, onde um grupo de pessoas tentou intimidar frequentadores do espaço. Um sintoma de muitos eixos que atravessam esta situação.

Para Desali, “não existe um contato direto com a obra, o juízo de valor parece estar sendo construído através da mídia, da internet. Falta um senso crítico, sobram opiniões superficiais”. Neves engrossa o coro: “São pessoas que nunca deram a mínima para arte. Hipócritas que evocam o estatuto da criança e do adolescente, mas que submetem elas à inúmeras violências, como o fundamentalismo religioso, a evocação ao demônio, algo assustador”.

Através de termos como “auto-promoção” e “circo de marketing”, os três apontam como gatilho fundamental de toda a movimentação um “propósito bem definido”: força eleitoral. “É um coro orquestrado, de pessoas oportunistas, aproveitando a onda conservadora que acontece no Brasil”, acredita Lamonier. “Existem pessoas que estão engrossando este coro, pouco esclarecidas. Mas quem está na ponta sabe muito bem o que está fazendo. Viram uma oportunidade perfeita para representar BH neste contexto de censura, ataque. Loucura mesmo”.