Marcio Seixas é um campeão de Oscar. Apesar de nunca ter comparecido a uma cerimônia da maior premiação do cinema americano e, tampouco, ostentar uma dessas estatuetas douradas em sua casa, é a voz dele que os brasileiros ouvem quando um filme de Clint Eastwood, Morgan Freeman, Michael Caine ou Sean Connery ganha as telas de cinema e da TV, em versão dublada.
 
Criado na Barroca, em Belo Horizonte, e um dos grandes nomes da dublagem no país, ele comemora exatos 40 anos desde o dia em que saiu da capital mineira para emprestar as suas cordas vocais a filmes, séries, desenhos e comerciais nos estúdios do Rio de Janeiro. “Tudo aconteceu meio por acaso”, lembra esse mineiro de 69 anos, que trabalhava como locutor de rádio na época.
 
Com muitas contas a pagar e um bebê recém-chegado, Seixas foi atraído à Cidade Maravilhosa, em 1974, por uma oferta de emprego que não se concretizou. “Não poderia voltar para Belo Horizonte. Os cachês eram muito baixos, como são até hoje, e, embora já fizesse publicidade, destacando as ofertas semanais da Embrava e da Mesbla, meu salário era insuficiente”.
 
No peito e na raça
 
Foi a sua primeira esposa quem mostrou o caminho das pedras, chamando a atenção para o anúncio publicado no jornal de domingo sobre um teste para pessoas de “boa leitura em voz alta”. Era na Herbert Richers, uma das fundadoras da dublagem do Brasil (fechada em 2010), chegando a ter os maiores estúdios da América Latina, com 10 mil m² localizados na Tijuca.
 
“A noite custou a passar e corri para lá na manhã seguinte, achando que chegaria com a maior vantagem, sendo um dos primeiros da fila. Mas o pátio estava coalhado de gente. Eram 330 candidatos para 16 vagas. Fui selecionado e um dos dois que continuaram depois de dois meses de treinamento. Após trabalharem manhã, tarde e noite, as pessoas se assustaram quando viram o contracheque”, recorda.
 
Mais alguns meses e ele realizaria um de seus sonhos: trabalhar na rádio Jornal do Brasil. Na primeira tentativa, um ano antes, fez um teste no “peito e na raça”, viajando a noite inteira de ônibus e saindo da rodoviária Rio Branco diretamente para a sede da estação. “Na segunda vez, tinha acabado de surgir uma vaga à noite e fui contratado pelo coordenador Eliakim Araújo (ex-apresentador de TV)”.
 
“Assassin!”
 
No JB, permaneceu por 19 anos. Na Herbert Richers, foram 24 anos. Um filme sobre corridas automobilísticas “batizou” Seixas no estúdio carioca. Na primeira fala em “24 Horas de Le Mans”, o mineiro se sentiu intimidado: “Entrei na sala e fiquei constrangido. Na aquele tempo, as gravações eram feitas com todos os dubladores juntos e eles me olhavam como se perguntassem quem eu era”, registra.
 
O segundo motivo de susto foi o texto em francês. “Era o pai do piloto que morria num acidente e corria para o local gritando ‘assassin!’. Perguntei ao diretor de dublagem se era mesmo para dizer em francês e ele, com toda a delicadeza (risos), disse que era para falar exatamente como estava escrito. Por sorte, deu tudo certo”, diverte-se Seixas, que logo depois viu sua vida mudar. 
 
“Entrei de cara nas gravações, realizando comerciais para os cigarros Minister, suave saber para quem sabe o que quer”, repete o bordão.
 
Sem nunca ter se preocupado em catalogar seu trabalho, calcula que o número já ultrapassa a casa das dezenas de milhares.
 
De 'vitrolão' a protagonista
 
O grande amor da vida de Marcio Seixas é a tia Naná. Nas duas vezes por ano que bate ponto em Belo Horizonte, o dublador e locutor nunca deixa de passar na casa daquela “baixinha branquinha, de cabelos pintados”, que possui “a fórmula secreta do melhor pernil de Natal do mundo”.
 
Ele conta: “Cada vez que toco a campainha e sou recebido com um ‘oi, filho!’, Deus do céu, vejo que vale a pena viver”. Lembra dos tempos em que seu pai levava os amigos “cachaceiros” à casa da irmã no Santa Lúcia, para comer um “imbatível” frango ao molho pardo, feito numa enorme panela.
Antes de virar uma das vozes mais conhecidas do Brasil, Seixas foi locutor das rádios Minas, Atalaia, Cultura e Del Rey. Começou fazendo o que ele define como “vitrolão”, dizendo apenas o título da música, o seu autor e as horas no intervalo das canções. “Era uma tortura!”, recorda.
 
Pinguela
 
O tormento não se deve apenas ao trabalho “sonolento”, que ia das 5 às 10 horas da manhã, mas também ao seu itinerário para chegar à rádio. “Pegava o ônibus às 3h30, na avenida Amazonas, e levava 40 minutos até chegar ao Água Branca, em Contagem, tendo ainda que atravessar uma pinguela e a linha do trem”.
 
Na Del Rey (hoje 98 FM), encontrou o incentivo que precisava para criar um programa “com a cara de rádio FM estéreo” – a primeira da América Latina. “Todos os dias, de 12h30 às 13h30, só tocávamos música clássica. O único problema é que não sabia falar direito os nomes dos compositores”, assinala.
 
Mais uma vez ressalta a boa sorte, ao encontrar o maestro Roberto de Castro, então regente do Coral do Minas Tênis. “Ele foi uma luz na minha vida, um amigo muito querido que morreu em 1972. Iria se apresentar em Curitiba quando teve um descolamento de retina no voo, constatando algo mais grave (câncer nos olhos) depois”. 
 
Com a voz embargada, o dublador lembra que Castro morreu assim que deu entrada no hospital, mas que a apresentação foi mantida, com a projeção de um halo de luz no lugar onde o regente ficaria postado.
 
Hoje, totalmente adaptado ao Rio de Janeiro, Seixas trabalha boa parte do dia em casa, após montar um pequeno estúdio há quatro anos. “Representou um descanso em minha vida. Antes, atravessava a cidade inteira para fazer uma dublagem e, quando chegava em casa, já cansado, o estúdio me ligava avisando que tinha que voltar porque o áudio não tinha ficado bom”, explica.
 
Bond, James Bond, Dr. Spock e Eastwood, o predileto
 
Como muitos dos atores que dublou, Seixas iniciou sua carreira com papéis menores até receber a grande chance como protagonista. Foi em “O Ataque dos Mil Aviões”, na Cine Castro, pouco antes do fechamento do estúdio, em 1975.
 
“Fui chamado pela italiana Carla Civelli, uma p... diretora de dublagem cujo trabalho serve de modelo até hoje. Ela me ligou ressaltando que eu tinha que fazer um voz ‘dobrada’. Não entendi, mas ela disse que me explicava depois”, relata.
 
A dublagem principal tomou todo o dia e parte da noite. Aí chegou a hora da ‘dobra’. Foi quando ficou sabendo que teria que interpretar um segundo personagem na trama passada na Segunda Guerra Mundial, envolvendo pilotos de aviões. 
 
Miolo de pão
 
“A Carla me pediu para pegar duas pelotas de pão e colocá-las nos lados da boca, deixando claro que não poderia molhá-las nem engoli-las. E não é que esse artifício afetou o meu timbre de voz, que ficou mais pesada e pastosa. Foi maravilhoso!”.
 
Seixas foi a voz em português de personagens icônicos como o agente James Bond e o vulcano Spock, mas ele não tem nenhum pudor em apontar o seu preferido: Clint Eastwood. “Ele é a minha paixão. Cancelo tudo para fazer a dublagem dele. A voz dele é serena, quase sem força. A força está no personagem e nas intenções dele”.