Um casal que viaja pelo espaço por longos anos não vê a hora de chegar ao planeta colônia, sonhando com uma casa à beira do lago. O que teria acontecido à Terra para que não queiram mais habitá-la? Uma hecatombe nuclear? Poluição? O pessimismo sobre o american way of life? “Alien: Covenant”, que terá pré-estreia hoje em vários cinemas de BH, não dá respostas.

Em nenhum momento da trama os viajantes pensam em voltar para a Terra – desejo presente em 99% dos filmes de ficção científica. Pouco se fala ou se mostra a respeito do passado deles no planeta, a não ser por um vídeo em que o casal faz rapel. A busca parece ser o contato com a Natureza e um recomeço, como os primeiros colonizadores da América.

De fato, “Covenant” estabelece alguns paralelos com a formação dos Estados Unidos, a começar pela maneira como os tripulantes se tratam: colonizadores. São pessoas comuns, casais principalmente, liderados não por um cientista ou autoridade militar, mas sim por um religioso, cuja fé não é suficiente para evitar o encontro, no meio da jornada, com perigosos alienígenas.

Segundo prelúdio da série “Aliens” (o primeiro foi “Prometheus”, lançado em 2012), o filme – dirigido pelo mesmo Ridley Scott de “Alien, o 8º Passageiro” (1979), origem da franquia – evidentemente tem vários pontos de contato com os predecessores, como a perseguição dentro da nave e o fato de a mulher ser uma das poucas a enfrentar os inimigos extraterrestres.

Questões filosóficas

Da mesma forma que o primeiro, Daniels (Katherine Waterston) não ganha tanto destaque no início e, mesmo quando se confronta com o alien, não configura aquilo que podemos chamar de “heroína”. Scott está mais interessado em questões filosóficas já apontadas em “Prometheus”, sobre a criação da humanidade, a nossa falibilidade e o que viramos. 

Somando-se à informação de que os Engenheiros queriam destruir a Terra e os seres que inventou (num lamentável deslize do roteiro, isso não é explicitado no filme, já que o sintético David, remanescente de “Prometheus”, tem forte presença na história), chegamos à conclusão de que os colonizadores estão descrentes com aquilo que os homens se transformaram e buscam o paraíso em outra galáxia.

Os tripulantes, na verdade, não são desenvolvidos em sua personalidades, com poucas diferenças entre si. Se tornam vítimas do que a soberba e o comando depositado nas mãos de empresas provocaram, como deixa claro a cena inicial, em que David questiona o seu “pai”, um cientista que trata seu “filho” com desdém e objetivo servil.

No embate entre criador e criatura, as ligações com “Blade Runner” (1982), também dirigido por Scott, pipocam na tela. Mas sem o futuro distópico deste, “Covenant” parece lançar uma série de perguntas ao acaso, todas elas mal costuradas, derrubadas a partir de reviravoltas que nem mesmo o mais leigo espectador de ficção científica terá dificuldade em antecipar.