Decepções, desilusões, relações abusivas, machismo, amores unilaterais. Esses são alguns dos espinhosos terrenos percorridos por Aline Calixto em seu novo disco. Intitulado “Serpente”, o álbum é o mais confessional da cantora carioca radicada em Belo Horizonte. Repleto de parcerias e com uma ficha técnica luxuosa, o trabalho versa sobre situações vividas pela cantora – e por tantas outras mulheres. Fincando o pé no feminismo, “Serpente” consolida a potência da cantora, uma das principais vozes do samba em Minas, ambiente ainda predominantemente masculino. O Hoje em Dia conversou com Calixto sobre a luta contra o machismo, as relações tóxicas, o papel da mulher no samba, entre outros assuntos.

Como decidiu se embrenhar nesse terreno confessional de “Serpente”? 
A verdade é que sempre naveguei por esses mares. Porém, agora, o faço de forma intensa, pois “Serpente” é 100% dedicado à minha vida sentimental. É o ponto de vista de uma mulher que, assim como tantas outras, se apaixonou, se decepcionou, desiludiu, sofreu machismo, mas aprendeu a dar a volta por cima e seguir em frente.

Você disse que todas as músicas são endereçadas a alguém. Muita gente vai vestir a carapuça?

Bem, as músicas têm endereço certo, sim. Do repertório todo, apenas duas vão abordar o tema com outro viés. O resto são relatos fieis de histórias que vivi. Tem muito sofrimento, decepções, canalhices, traições, relações abusivas, machismos. Olha, se eu for destrinchar cada música, vai render um livro. Porque geralmente são histórias longas que busquei condensar numa única canção. Não tenho problema nenhum em relatar detalhadamente a história que deu origem a cada música. Só não vou revelar nomes, mas alguns ex-namorados e amigos mais íntimos vão sacar para quem disparei cada “tiro”.

Assim como essas questões atravessam a sua história, também fazem parte da vida de muitas mulheres. Acha que elas se identificarão?
Com certeza, meu olhar é direcionado ao universo feminino. Algumas pessoas, no geral homens héteros, têm dificuldade de entender quando digo que boa parte das relações amorosas são carregadas de valores machistas, implícita e explicitamente. Por outro lado, já recebi muitas mensagens de amigas e fãs que se sentiram representadas com “O Tiro”, primeiro single, lançado há dez dias nas plataformas digitais, que fala sobre quando a conta expectativa versus realidade não fecha no final. Imagino que o mesmo ocorrerá com todo o repertório.

Como você observa a luta feminista contra o machismo estrutural?
Precisamos falar sobre feminismo, até mesmo para que as pessoas entendam exatamente nossas pautas, nossas bandeiras. Ser feminista, para mim, é lutar para que possamos viver numa sociedade onde homens e mulheres desfrutem dos mesmos direitos. É uma luta árdua, pois desde sempre crescemos e vivemos numa sociedade patriarcal, onde certos padrões bizarros são considerados “normais”. Eu cresci ouvindo que é mais fácil trabalhar com homens, que são seres menos complicados, que muita mulher num mesmo ambiente gera problema. Esses conceitos distorcidos estão tão arraigados em nossa vivência, e é preciso estudo, conhecimento e coragem para eliminá-los.

É uma luta, inclusive, cada vez mais encampada por grandes vozes da nossa música, de Elza Soares até nomes contemporâneos. Como avalia o papel da arte nas transformações sociais e políticas? 
A arte é um potente instrumento de transformação do ser humano. Acredito demais no seu poder de agregar, evoluir e promover mais qualidade de vida. A música é um importante veículo onde podemos trazer à tona pautas que são muito importantes para nós, mulheres.

Para além do machismo, “Serpente” também diz sobre o amor e suas transversalidades. O amor perdido, o amor canalha, os ciúmes, as traições. Como cada um desses temas é tratado no disco?
Não é fácil lidar com um sentimento não correspondido, dar amor e receber indiferença é um golpe doloroso demais. Quando compus “Brilho Perdido”, vivia exatamente essa situação de disparidade sentimental. Já “Revival” foi inspirada em duas relações que vivi onde os dois sujeitos foram extremamente egoístas e mentirosos. “Sentimento Errado”, parceria minha com Moacyr Luz, mostra uma outra realidade, tão dura quanto as duas já expostas. Dar o fora, terminar uma relação onde já houve muito amor e desejo é um negócio difícil demais! O disco tá recheado de histórias complicadas, afinal de contas amar não é uma parada tão fácil.

Você enfrentou barreiras, por conta do machismo, quando resolveu cantar samba, que ainda é um gênero musical predominantemente masculino?
Nossa, se eu for contar tudo que já passei, acho que boa parte da galera do samba vai se decepcionar muito. Posso dizer que um dos ambientes mais machistas que já frequentei é o mundo do samba. Do assédio ao desprezo, passando pela indiferença, provei todos esses amargores. Hoje, já bastante calejada, se observo o mínimo sinal de machismo vindo para o meu lado ou para o de outra mulher, logo já boto a boca no mundo. Já passou da hora de mudarmos esses padrões. Nada contra receber elogios, mas já deu essa história de: “Ela é bonita e ainda canta bem

Hoje, temos um movimento forte de mulheres no samba em BH. Como observa esse levante?
Acho maravilhoso e dou a maior força. Temos cantoras, compositoras e instrumentistas maravilhosas, mas que precisam de mais espaço para mostrar seus trabalhos. Tem um projeto formado somente por mulheres aqui em BH chamado “Samba na Roda da Saia”, que é fantástico. Tem a Doris, Fernanda Vasconcelos, Dona Elisa Pretinha, Manu, Silvia Gomes, Marina Gomes, Giselle Couto, Cinara Ribeiro. No meu programa “Papo de Samba”, que vai ao ar todos os domingos na rádio Inconfidência, sempre toco a mulherada. Muitas vezes questionei essa disparidade nas rádios, principalmente no segmento do samba. É preciso mudar essas estatísticas. Defender o feminismo e praticar a militância nas redes sociais é importantíssimo, mas de nada adianta se isso não for colocado em prática na vida cotidiana.

Para além da questão de gênero, como você analisa a cena do samba de BH atualmente. Há uma potência criativa de novos compositores e compositoras?
Vivemos um período muito fértil. Cantoras e cantores, grupos surgindo, compositoras e compositores, instrumentistas, temos uma cena de samba muito bem servida na cidade. Acho que o povo belo-horizontino deveria prestigiar mais os artistas locais, consumir suas músicas, assistir aos shows, ir ás rodas de samba. Precisamos valorizar o ouro que temos por aqui.

Para terminar, me diga: o que é ser mulher para Aline Calixto?
Ser mulher é matar um leão por dia e seguir em frente. Enfrentar seus demônios e, como se não bastasse, os dos outros também. Mas tenho esperança de que o mundo um dia se torne mais sadio, onde possamos viver em pé de igualdade. Desejo imensamente que a existência humana não seja condicionada a ser assim ou assado caso você nasça mulher ou homem. Mesmo enfrentando todo esse caos, me orgulho de ser mulher e de poder lutar por mais dignidade, valorização e respeito.