“Depois de algumas vezes que apanhei na vida, acabei utilizando a frieza para enxergar as coisas, para que elas não doam tanto”, afirma Ana Carolina ao Hoje em Dia. A cantora parece mesmo dura na queda; não esmorece nem ao falar de memórias sofridas. “Minha dor é seca. Choro pra dentro”, diz ela, desta vez no livro “Ruído Branco” (Editora Planeta, R$39,90). A obra, disponível para vendas na web, chega às livrarias em janeiro.

O título marca a estreia da artista no universo da literatura. Convidada pela editora Planeta para fazer um livro de “poesia urbana”, o trabalho conta com fac-símile de escritos feitos em uma máquina de escrever quando ela tinha por volta de 12 anos. Metade dos textos, contudo, foi feita a partir de agosto. “Descobri nesse meio tempo que só consigo escrever sobre mim, ao contrário da música”. Com prefácio de Fabrício Carpinejar e contracapa assinada por Elisa Lucinda, são mais de 50 poesias, prosas e letras inéditas, divididas em quatro partes.

O conjunto forma uma espécie de autobiografia, na qual Ana Carolina se expõe como poucas vezes fez. “Me assustei com o tanto que revelei. Ao mesmo tempo, fiquei feliz, porque só assim virou esse livro sincero”.

Como uma terapia, a escritora diz que passou por um processo no qual sofreu, se divertiu e saiu diferente. “Passei por um largo leque de sentimentos, porque recordava de determinadas passagens da minha vida e tinha que reviver o que aconteceu para ter os devidos argumentos para compor a poesia”.

Dentre as memórias, uma, em especial, mexeu mais fundo. “O Silêncio”, texto da autora feito para o pai, fala sobre a relação que os dois nunca tiveram. “Eu tinha 2 anos quando ele morreu. Ali, conto que forjava que ele me protegia. Falo sobre o que tinha acontecido com ele, quando, na verdade, mentia para mim mesma para tentar sanar um espaço muito grande, porque jamais tive essa presença. Quando fui tocar nesse assunto, realmente senti novamente essa dor, aquele estado de frustração, mas sempre de forma sublimada”.

Cantora Ana Carolina
ANA CAROLINA – “Quando escrevo, estou livre das amarras das melodias, há uma liberdade maior. Esse ‘estado’ de composição é inédito para mim”

Multiartista
A publicação mostra ainda a faceta de pintora de Ana Carolina. Nas 144 páginas, fotografias exclusivas da intimidade da autora dividem espaço com imagens de telas feitas por ela. A artista, por sinal, já teve quadros expostos no ano passado e diz nunca ter parado de pintar. 

Já como cantora, tem na bagagem mais de 5 milhões de álbuns vendidos em 17 anos de estrada. Apesar do histórico, é o ofício recém revelado ao público o predileto da multiartista. “Prefiro escrever”, diz. O próximo passo, no entanto, deverá ser mesmo na música. Ana Carolina planeja lançar em 2017 um álbum com regravações. “‘Oceano’, de Djavan, com certeza estará no disco”, adianta. 

Serviço: “Ruído Branco” (Editora Planeta, R$39,90), de Ana Carolina. Venda nos sites da Saraiva, Cultura, Livraria da Travessa, Livraria da Folha, Fnac e Amazon.