“O que é a fantasia no meio da memória? Não seria ela a própria memória?”, indaga Tony Ramos ao Hoje em Dia. A pergunta está no cerne do filme “Quase Memória”, uma das principais estreias desta quinta-feira nos cinemas.
 
Cada vez mais à vontade no cinema, um dos grandes galãs da teledramaturgia brasileira fala de sua parceria com o veterano cineasta Ruy Guerra, de 86 anos, como se tivesse encontrado o paraíso em forma de gente. “Um homem com a trajetória que tem, com a história que tem... Fiquei muito feliz em participar desse momento dele”, afirma.
 
Baseado no livro homônimo de Carlos Heitor Cony, o filme sintetiza muitas das questões levantadas anteriormente em filmes de Guerra, moçambicano residente no Brasil e autor de trabalhos seminais na cinematografia do país, como “Os Cafajestes” (1962) e “Os Fuzis” (1964). “O grande protagonista do filme é a memória. A memória de cada um, o tempo de cada um”, registra.
 
Na trama, Carlos, o personagem de Ramos, acorda no dia 1º de maio de 1994, data da morte do piloto Ayrton Senna, e se depara com o seu “eu” de 30 anos atrás, interpretado por Charles Fricks. Juntos, buscarão lembranças do pai (João Miguel), um homem admirável que defendia com determinação as suas crenças. 
 
Na história de Cony, publicada em 1995, o personagem duplo não existe. "O Carlos jovem aparecia nos diálogos do livro. Como transformar isso em imagens? Essa foi a grande sacada de Ruy, ao criar esse personagem”, assinala Ramos. 
 
Tony Ramos é defensor de uma produção diversificada para o cinema brasileiro. “Na Europa é assim: há espaço para blockbusters e autorais. No Brasil, o Ruy é um dos nomes mais importantes deste segundo grupo”, observa
 
O ator precisou desenvolver um trabalho especial com seu duplo. “Ensaiamos muito para que pudéssemos criar uma analogia de gestos, na maneira de falar. O Ruy nos ouviu e encontrou um diapasão, como se fôssemos instrumentos de uma orquestra”, elogia.
 
LINGUAGEM
Para Ruy Guerra, “quando você sai de um universo semiótico determinado, especialmente da escrita, tem que buscar outras características equivalentes”. Ele foi além, criando uma narrativa diferente, “tornando algo que era secundário no livro em personagem principal”.
 
“Você achou o filme hermético?”, pergunta o realizador, que levou mais de dez anos para tirar o projeto do papel – e outros três para lançá-lo nas salas depois de pronto. “Quando surgiu a história, eu pensei que seria uma produção fácil de fazer, com vários argumentos atrativos para o público, baseado num livro que vendeu 400 mil exemplares, mas foi o meu projeto mais difícil de captar dinheiro”, lamenta Guerra.