O sobrenome é Baptista, mas poderia ser Arte – com a maiúscula geralmente reservada ao grandes. Figura de presença (física, biográfica e sonora, como nesta entrevista concedida ao Hoje Em Dia) gigantescamente espirituosa, Arnaldo Dias Baptista está em BH (“Que eu acreditava que deveria ser a capital do Brasil, por estar no centro de tudo”, como revela) onde possuí pouso, para inaugurar, amanhã, a exposição “Resistência: a ciência mutante da existência”, na Carminha Macedo Galeria de Artes, no Ponteio Lar Shopping.

O momento captura uma espécie de “troca” de pele que pode ser definitiva para Arnaldo. Dedicado agora integralmente às artes visuais, ele revela que raramente consegue pintar ouvindo música– justamente o dom que distribuiu com fartura para ajudar a modelar a música pop brasileira, tanto com os Mutantes, quanto em sua carreira-solo.

“As vezes penso que sou ‘musgo’, quando fico tentando unir as duas coisas”, revela, divertido. Mas não sei, acho que remeto à época em que fiquei no hospital, apenas com uma cama e uma parede em branco. Acho que coloquei as duas coisas em ângulos e dimensões diferentes”.

O episódio a que se refere- a internação em uma clínica psiquiátrica no começo dos anos 80, marca de alguma forma a inauguração de Arnaldo artista visual, onde começou a se dedicar aos desenhos, colagens e pinturas como processo terapêutico. “Ainda é uma forma de tentar se comunicar com o mundo”, sintetiza.

Talvez isso justifique também a ênfase no imaginário fantástico (discos voadores, por exemplo), e especialmente, nos trocadilhos e sacadas por vezes geniais que imprime nas telas. Rir é um lado fundamental para a existência de Arnaldo (e de todos nós, certo?). “Nesse sentido crio muitas coisas, como o caloteiro, que na verdade é o cara que vende calotas. Pinto minhas questões voltadas à tecnologia, ao vegetarianismo também. É uma forma de ilustrar minha vida com todos estes lados”.

A curadoria para as telas selecionadas para a exposição foi feita de forma espontânea, ou seja: o que Arnaldo (e Lucinha, esposa e fiel companheira de viagens) escolheram, é isso mesmo. “Eu vejo e gosto de um quadro e pronto”, simplifica, revelando que, ainda assim, as obras capturam e filtram imensa gama de sentimentos e sentidos para ele, “fases que por vezes imperaram como dor, sofrimento, psicodelismo”.

Sobre a arte, que poderia lhe batizar, ele. “Numa época da minha vida tentei ser advogado, ainda adolescente. Mas vi na arte uma espécie de fuga, um lado mais aberto, mas fora das religiões, do sistema. De certa forma foi um alívio”, revela. Com certeza foi um alívio para todos nós também: que Arnaldo advogue apenas em nome de si e de seu criativo universo.