Aos 26 anos ela disse para si mesma: “Chega!”. E deu um basta nas dietas mirabolantes e nos remédios para emagrecer. “Aos 18, me tornei uma vítima da ditadura da magreza quando vi a balança oscilar. Sou o exemplo do que não fazer para emagrecer”, conta a atriz Mariana Xavier. Hoje, aos 36, ela não só virou o jogo como se tornou uma defensora do respeito ao próprio corpo e do combate à gordofobia. 

O tema é cada vez mais presente e ocupa vários espaços. Ao lado das colegas de profissão Fabiana Karla, Cacau Protásio e Simone Gutierrez, Mariana acaba de lançar o livro “Gordelícia” (Editora Planeta, 192 páginas, R$ 32,90), fruto de um movimento que elas fizeram em 2014, quando publicaram imagens de biquíni na praia para incentivar outras pessoas a não terem vergonha do corpo. “A campanha teve uma visibilidade maior do que esperávamos. Muita gente compartilhou esse desabafo e vimos que tinha um público a ser ouvido ali”, comenta Mariana.

Para ela, é importante a celebridade se mostrar sem máscaras. “Faz parte da nossa responsabilidade social”, defende.

"Me orgulho de ter a consciência de que o meu peso não mede o meu valor” 

Cinema e TV
Após o longa-metragem “Minha Mãe é uma Peça”, a atriz volta às telonas, no próximo dia 20, no filme “Gostosas, Lindas e Sexies”, protagonizado por ela, Cacau Protásio, Lyv Ziese e Carolinie Figueiredo. A trama conta as aventuras no Rio de Janeiro de quatro amigas que têm em comum o manequim acima do 42. 

“Ainda temos um caminho longo para combater o preconceito. Mas um filme com quatro mulheres fora do padrão é um grande passo”, acredita Mariana, que questiona o tal “padrão”. “Magreza ser padrão em um país onde mais de 50% da população está acima do peso é contraditório”, analisa a atriz, que está no elenco da novela global “A Força do Querer”, de Glória Perez.

No folhetim, a personagem dela se transformará ao longo da trama em uma modelo plus size. “Ela engrossa esse discurso que já venho fazendo há alguns anos. Falamos de aceitação, de tolerância, do direito de cada pessoa ser feliz como quiser. E o combate a isso é tratar (a questão) com naturalidade”. 

“Temos que respeitar nossa natureza e nossa genética e não ficar buscando um ideal de beleza que nos violenta” 

Para Mariana, é preciso acabar com eufemismos como “gordinha” e “fofinha”. “É gorda e ponto. Mas para as pessoas essa palavra parece um xingamento, sendo que é apenas uma característica da pessoa”, pontua.

Para falar desse e de outros assuntos, a atriz criou um canal no YouTube chamado “Mundo Gordelícia”. “Recebo retornos incríveis de pessoas que estão olhando de outra forma para o próprio corpo e o do outro. Relatos de aceitação da diferença”. 

 

Canais no YouTube arrebatam seguidores ao discutir preconceito e autoaceitação

 

Canal Tá, Querida!
“Só queremos respeito às diferenças”, diz o nome à frente do canal “Tá, Querida!”


No processo de empoderamento e aceitação do próprio corpo, Luiza Junqueira, de 24 anos, criou um canal no YouTube. Para quem não conseguia se olhar no espelho sem roupa, foi um passo importante para desconstruir a visão de si mesma e, de quebra, ajudar outras pessoas. 

Com mais de 3 milhões de visualizações, o canal “Tá, Querida!” fala dos mais variados assuntos. Uma das primeiras postagens de Luiza foi o documentário “Gorda”, assinado por ela, no qual aborda a relação de três mulheres com seus corpos. 

“Ele é fruto do curta-metragem ‘Espelho Torcido’, onde fotografei meu corpo todo para tentar lidar com a raiva que tinha dele. Joguei isso na internet e o resultado me motivou a não parar”, conta a youtuber.

Uma das inúmeras militantes contra a gordofobia, Luiza diz que o melhor é encarar a situação com naturalidade, além de desarmar preconceitos velados de pessoas que dizem “Você tem um rosto tão bonito, por quê não emagrece?” ou “Você é uma gorda linda!”, como se uma coisa invalidasse a outra.

A associação de sobrepeso com falta de saúde também cria aversão a vários dígitos na balança. “As pessoas têm que parar de falar que estão gordas quando não estão. Principalmente quando uma pessoa magra fala que está muito gorda para quem é gorda. Se você levanta a sua voz, a pessoa ainda fala ‘não estou falando de você’”. 

Outros canais no YouTube engrossam o coro do “vai ter gorda de biquíni sim”, caso de “Gorda de Boa”, “Alexandrismos”, “A Gorda e o Gay” e “Moda Plus Size Brasil”. Todos com milhares de acessos e seguidores. 

“Não somos a minoria. Pelo contrário. E só queremos respeito às diferenças”, pontua. “Para um dia não ter que falarmos mais modelo plus size, e apenas modelo. Assim como o beijo gay, negra linda e outras lutas”, anseia.

 

Blog de mineiras mostra que estilo independe do manequim 

Garotas FDP
As “Garotas FDP” desmistificam inúmeros tabus, como usar cropped, estampas e transparências

“Na moda plus size você tem que ser caçador”, constata a administradora Carol Kerbidi, de 30 anos. Na busca por um bom relacionamento com o espelho e a autoestima, ela e as amigas Mariana Cyrne, Carol Cyrne e Jamille Chamon, que sempre dividiram as angústias na tentativa de alcançar o “padrão”, acabaram criando o site Garotas FDP – a sigla para “Fora Do Padrão” é um trocadilho com um palavrão. 

Há um ano no ar, tanto no blog como nas redes sociais (são mais de 25 mil seguidores apenas no Facebook), elas desmistificam inúmeros tabus, como usar cropped, estampas e transparências. Regularmente publicam combinações para diferentes ocasiões e peças garimpadas em diversas lojas.

Cai bem
Rola até uma espécie de desafio, quando montam um look quase idêntico para uma delas e Jamille, irmã de Carol que veste 38. “Isso é uma forma de incentivar as pessoas a conhecerem o próprio corpo e saberem o que faz cada um se sentir bem”, diz Carol. 

O feedback de quem as acompanha no blog motiva as garotas a seguirem em frente. “Pessoas que, como nós, só tiravam selfie estão clicando o corpo inteiro. Isso significa que estão gostando do que veem no espelho”, comenta. 

O blog foi uma mudança de paradigmas na vida da administradora. “É difícil se sentir diferente do que os outros dizem que você deveria ser. Fico feliz em saber que de alguma forma estamos contribuindo para essa luta”, enfatiza.

Para Carol, o mercado começou a entender que o gordo também gosta de moda e não quer se esconder. Nada de legging e camisão. 
“No último ano, tivemos um aumento de marcas pensando nesse público. Mas a modelagem ainda é um problema”, pontua.

Além Disso
A moda plus size é um nicho que atende ao público que usa roupas acima do tamanho 44. Segundo dados da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest), esse mercado cresce 6% anualmente, o que corresponde a cerca de 300 lojas físicas e cerca de 60 virtuais. Mesmo com o crescimento, não é tão fácil encontrar boas peças e variedade. “Muitos fabricantes ainda pensam que o plus size é um corte grande e se esquecem da modelagem”, explica a administradora e blogueira Carol Kerbidi.

A maioria das peças é séria. “Muitas ainda parecem roupas de pessoas mais velhas. Queremos peças divertidas, coloridas e de diferentes estilos. Já avançamos, e nesse ponto o e-commerce dispara. Mas ainda é preciso dar outros passos”, afirma.

A representatividade é algo importante e Carol lembra das tops internacionais Ashley Graham e Justine LeGault e das brasileiras Sílvia Neves e Flúvia Lacerda, que recentemente foi capa da revista Playboy. “Quando você passa a ver essas mulheres que são lindas ocupando espaços, passa a se sentir mais à vontade no espelho”.

Em fevereiro deste ano, Mariana Cyrne, uma das Garotas FDP, se tornou oficialmente embaixadora do Body Image Movement criado por Taryn Brumfitt, uma fotógrafa que odiava o próprio corpo. Trata-se de um movimento mundial de aceitação e amor próprio que resultou no documentário “Embrace”. 

 

 

Canal "Mundo Gordelícia", da atriz Mariana Xavier

 

 

Documentário "Gorda", do canal "Tá, Querida!"