O sertão ainda não virou mar, como diz a famosa música de Sá, Rodrix e Guarabyra, mas parece ter dominado a pauta cultural em Minas Gerais, com vários eventos promovidos simultaneamente para celebrar essa geografia que inspirou grandes nomes da literatura, como Guimarães Rosa e Graciliano Ramos. Não por acaso, os dois escritores são patronos da sétima edição do Festival Literário de Araxá (Fliaraxá), com início na quarta-feira (27).

Por conta dos 110 anos de nascimento do autor mineiro de Cordisburgo, a programação se volta principalmente para Rosa e seu peculiar retrato do sertanejo em livros como “Grande Sertão: Veredas” e “Sagarana”. Ramos é lembrado pelos 80 anos da principal obra, “Vidas Secas”. Apesar de o sertão que abordam não ser o mesmo, não há dúvidas de que aquele pedaço de terra no Norte do Estado, que se estende até o Nordeste, está em nosso DNA.

“É um espaço geográfico que traz uma diversidade de possibilidades de entradas, tamanha é a riqueza desta região, cuja maior importância é a formação de nossa identidade”, registra Makely Ka, idealizador do projeto “Imersão Grande Sertão”, em cartaz até domingo no Sesc Palladium. “É tanta coisa que a gente fala e usa vinda de lá que não nos damos conta. Não sabemos o quanto estamos impregnados, formando a identidade não só mineira como também a brasileira”.

Aproveitando o tema do Fliaraxá (“Alma, Leitura e Revolução”), o curador e jornalista Eugenio Bucci enxerga na dupla de escritores um universo muito diferente um do outro. “Rosa é mais alma e Graciliano, revolução”. Para ele, o engajamento e o contraste realista do alagoano, que servem como pano de fundo de um despertar ideológico, não existem em Rosa, que manifesta um “transbordamento místico” em seus trabalhos literários. 

Familiaridade

Na terça, Odilon Esteves realizará leitura dramática de obras de Rosa, dentro do projeto “Rosa Encantado”, do Palácio das Artes. Natural de Novo Cruzeiro, no Jequitinhonha, ele sempre sentiu familiaridade com o trabalho do escritor. “Leio como se fosse literatura oral”, salienta o ator, que, há dois anos, está envolvido num projeto que pretende levar a obra do escritor para o palco.

“A leitura não é só a transposição da palavra escrita para a linguagem oral. Há todo um trabalho de elaboração, de transmitir as imagens do escritor para o espectador. A fala é só um meio. Hoje estou nesta busca, por causa do espetáculo, que terá um caráter interativo, permitindo que, a cada dia, o público possa escolher três de oito possibilidades de contos”, adianta.

Heloísa Starling

Heloísa Starling

Espelho do Brasil

Para a historiadora e cientista política Heloísa Starling, que participará de mesa sobre Graciliano Ramos e Guimarães Rosa durante o Fliaraxá, o sertão tem significado mais amplo, possibilitando pensar o Brasil. “O sertão, para nós, é um conceito, trazendo um conteúdo de identificação. Dentro da minha hipótese, isso vem desde Euclides da Cunha (autor de ‘Os Sertões’), para quem o sertão é tanto Canudos quanto a população desassistida do Amazonas, perto do rio Purus”, compara.

Heloísa lembra que a origem da palavra remonta ao século 18, provavelmente como um diminutivo de “desertão”, palavra trazida pelos portugueses da África. “Aqui ela se transforma em algo metafórico, como uma região sem lei, contrária à ordem de onde estão as minas, a Coroa”. 

Segundo ela, tanto Rosa quanto Ramos falam em seus livros de parte da população a quem devemos cidadania: os pobres do sertão. Em “Vidas Secas”, essa ideia se manifesta por meio de uma família que foge da secura em direção à cidade. “Na última página de ‘Vidas Secas’, o pai diz que na cidade os meninos terão acesso à escola. Uma noção que, em Guimarães, não existe mais. Em ‘Grande Sertão’, a cidade não é garantia de cidadania”, analisa.

Makely Ka e Banda

Makely Ka e Banda

Geografia Musical

Em crise de identidade, o cantor e compositor Makely Ka partiu, em 2012, para o sertão descrito por Guimarães Rosa em cima de uma bicicleta. No final da jornada, reconheceu-se na geografia e descobriu sua gênese musical.

Filho de pai piauiense, sempre quando tocava em BH diziam que seu trabalho tinha um quê nordestino. Quando excursionava pelo Nordeste, porém, a avaliação era o oposto, identificado com a sonoridade mineira.

“Aí lascou, né?!”, brinca Makely, que apresentará, no domingo, o show “Cavalo Motor” no Sesc Palladium. Ao reler “Grande Sertão”, caiu a ficha. “Na verdade, o sertão começa em Minas e termina no Nordeste”, afirma.

“A música daqui reflete o cerrado, com uma paisagem ampla e árvores retorcidas. Ao andar na caatinga, pisando nos galhos secos, já estamos fazendo ritmo. Minha música é a mistura destes biomas”, pontua.

Ele destaca que o sertão é um campo de resistência, em que a preservação ambiental conflita com grandes plantações de soja. “Após ter suas fronteiras fechadas pela Coroa no século 18, devido à perda de controle sobre o ouro, o sertão voltou a ser reocupado na metade do século passado, mas com expansão agrícola de consequências graves”, salienta.

Espetáculo "Grande Sertão: Veredas"

Espetáculo "Grande Sertão: Veredas"

Cheia de sonoridade, adaptação de ‘Grande Sertão: Veredas’, com Caio Blat, chega ao Palácio das Artes

Para a diretora Bia Lessa, que estreia neste sábado (23), no Grande Teatro do Palácio das Artes, sua adaptação de “Grande Sertão: Veredas”, Guimarães Rosa é como a Biblioteca de Babel do conto de Jorge Luis Borges. “É algo sem fim, em que você sabe coisas e, ao longo do tempo, pensa em coisas novas. Rosa é vasto, ilimitado”, registra.

Bia observa que a estética do espetáculo é resultado da própria obra do escritor mineiro. “Não tive nenhuma ideia inteligente. Só nos preocupamos em escolher a melhor maneira de retratá-la. É uma obra muito ampla, de infinitas leituras. A ideia foi não singularizá-la, oferecendo uma pluralidade de leituras dentro do próprio teatro”.

Com Caio Blat, Luiza Arraes e Luiza Lemmertz no elenco, “Grande Sertão: Veredas” busca mais evocar do que explicar o sertão. “Ele está dentro da gente e, na peça, é apenas sugerido. Ao falar de jagunços, Guimarães, na verdade, está falando de todos os homens. A grande questão em Guimarães é mais metafísica do que regional”, analisa Bia, que estava há 10 anos sem fazer teatro.

Ela lembra que seu primeiro trabalho com o mais famoso livro de Rosa aconteceu com uma exposição encomendada pelo Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. “Diante de um profundo inventor da linguagem, eu me deparei com a impossibilidade de fazer a mostra com imagens, pois estaria empobrecendo-o. Quebrei a cabeça e fiz só com palavras”, recorda.

Mundo torto

Agora, diz ela, o grande desafio é aprofundar em questões que são pertinentes, em relação à formação do ser humano, a partir “deste momento que estamos vivendo, de um mundo tão torto”. A concepção cênica do espetáculo tem a ver com isso, ao reproduzir uma espécie de ringue, apresentando estrutura tubular.

“A ideia era construir uma geografia cênica, mais do que um cenário”, explica Bia, que distribuirá fones de ouvido para parte da plateia para que se possa escutar separadamente a trilha sonora, as vozes dos atores, os efeitos sonoros e sons ambientes. “Queria uma sonoridade que ultrapassasse a ideia do teatro em si, que fosse mais parecido com uma instalação”, destaca.