“A cidade e sua herança colonial, seus medos, seus fantasmas. Semana Santa, o cheiro de incenso, as roupas lavadas na peregrinação de lágrimas, as luzes, o teatro de rua. Portas fechadas. Na distorção das imagens a revelação do martírio. Do documentário distante ao contato das chagas. No domingo da ressurreição a cidade enfeitada prossegue”. Assim diz o texto do catálogo de “Paixão e Fé”, audiovisual exposto em 1976, com fotos de José Luiz Pederneiras e trilha de Tavinho Moura. 

Quarenta e dois anos depois, o trabalho poderá ser assistido pelo público mineiro novamente, em exibição gratuita que acontece hoje, na AM Galeria. Pioneiro, “Paixão e Fé” traz imagens da procissão do Senhor Morto em Diamantina, clicadas por Pederneiras durante a Semana Santa de 1974. A obra marcou uma nova fase do audiovisual brasileiro, conquistando o Prêmio do 4oª Salão Global Funarte. 

“É um trabalho emblemático, que veio num momento em que o audiovisual estava se firmando como linguagem artística e que mostra que os artistas mineiros estavam sensíveis aos novos meios e tecnologias”, comenta Manu Grossi, curadora da mostra, lembrando que o aparato trazia slides das fotografias em preto e branco, com tratamento sépia, exibidas por dois projetores de slides sincronizados, criando efeitos de fusão em sua sequência.

José Luiz Pederneiras lembra o caráter antropológico da obra. “É um transe coletivo, de fé e mítica do povo, que tem imagens diurnas e noturnas muito fortes. Um espetáculo, com música, com canto, com interpretação. Uma manifestação cultural incrível, que movimenta toda a cidade e que tem uma dinâmica, um andamento, muito interessante”, relembra, destacando a importância de reviver o trabalho. “É uma obra que emociona, que interage muito com as pessoas. Fico muito entusiasmado em poder mostrá-la novamente”, completa. 

Antropológico

Grossi ressalta a importância de rememorar “Paixão e Fé” nos tempos atuais. “O trabalho documenta o aspecto religioso da cultura mineira que, por ser tão enraizado, muitas vezes é esquecido. Mostra um período de quaresma, de luto e silêncio, mas que prepara a cidade para florescer em alegria. E o Brasil vive um momento de reflexão, de conflito, de instabilidade, e de uma promessa de renascer. Então, acho importante reviver esse trabalho agora”, diz. “É uma obra que tem densidade regional e, ao mesmo tempo, é super contemporânea. Conversava com o que acontecia à época e ainda conversa”, completa.

Musical

Tamanho o encanto que gerou, a trilha sonora do audiovisual foi posteriormente transformada em canção, quando Milton Nascimento pediu a Fernando Brant que escrevesse uma letra, eternizando a música “Paixão e Fé” no disco “Clube da Esquina 2” (1978). “A música casou muito bem, Tavinho teve grande sensibilidade para interpretar as imagens”, diz Pederneiras. “A música é um hino mineiro, que mostra toda a carga simbólica cultural de Minas”, completa Grossi. 

Serviço: “Paixão e Fé”. Segunda-feira (5), das 10h às 19h, na AM Galeria (Rua do Ouro, 136 – Serra). Entrada franca.