Nas últimas décadas, volta e meia um debate é reaceso na cultura pop: teria o rock’n’roll morrido de vez? Enquanto a ascensão de outros estilos musicais corrobora com o “sim”, o surgimento de novas bandas e subgêneros depõe a favor do “não”. Em Belo Horizonte, um grupo criado em 2016 prova que o rock pode, de fato, se renovar junto às gerações mais jovens. 

Trata-se da Poison Gas, banda formada por quatro garotos de 14 anos, apaixonados pela música pesada. Influenciados por nomes consagrados de diversos segmentos – de Queen a Metallica, de Nirvana a Led Zeppelin, de Eagles a Slipknot – o grupo foi recentemente convidado para representar Minas Gerais na “International Beatle Week”. Encontro mundial em reverência ao Fab Four, o evento acontece entre 22 e 28 de agosto, em Liverpool, na Inglaterra. 

Produtor da banda e pai de Pedrinho (guitarra), Alexandre Ferreira conta que o convite surgiu em dezembro do ano passado, quando a trupe se apresentou na “BH Beatle Week”. 

“Na ocasião, um dos diretores do Cavern Club estava presente e assistiu ao show. Ele me chamou e disse que tinha ficado maravilhado, que em trinta anos de evento nunca tinha visto uma banda de crianças tocando Beatles com tanta qualidade”, afirma. “Ali mesmo, já perguntou se a Poison Gas poderia se apresentar na edição internacional, em Liverpool. Os meninos ficaram emocionados, acharam que era ‘pegadinha’”, completa, lembrando que o festival contempla artistas de mais de 40 países.

Garotos recebem o convite honroso de Clark Gilmour e Jon Keats, do Cavern Club

Garotos recebem o convite honroso de Clark Gilmour e Jon Keats, do Cavern Club

A Poison Gas se apresenta neste sábado (14), a partir das 17h, no Bud Basement. Os ingressos custam R$ 30.

Profissionais

Alexandre conta que, apesar de ter sido criada como um hobby, a banda é levada com muita seriedade pelos garotos, que já se apresentaram em festivais e casas de show de BH. 

“Eles se preocupam em fazer a coisa de forma profissional. Têm muito compromisso, estudam individualmente, ensaiam toda semana e se divertem”, diz. “Isso se refletiu no show da ‘BH Beatle Week’, em que eles tocaram músicas mais ‘Lado B’ da banda, o que chamou a atenção”, expõe, citando a canção “Think For Yourself”, do álbum “Rubber Soul” (1965).

“Nós recebemos com muita felicidade o convite do pessoal do Cavern Club, que viu o nosso show e gostou muito. Estamos  empolgados em mostrar nosso trabalho na Inglaterra”, declara Rafael Baino (bateria). “Temos preparado músicas menos conhecidas dos Beatles, com arranjos diferentes e criativos”, coloca Gabriel Colen (voz e guitarra).

Para Pedrinho, a Poison Gas serve como um cartão de visita do rock’n’roll para meninos da idade dele. “Realmente, nossos colegas não gostam muito de rock, preferem outros estilos. Por isso, o objetivo é mostrar para a nossa geração o que é o rock de verdade”, diz o garoto, que começou a tocar guitarra aos sete anos e já assistiu, com o pai, a shows de bandas como Pearl Jam, Iron Maiden e Black Sabbath. 

Apesar da paixão pelos clássicos, a Poison Gas mira um futuro autoral e já conta com quatro músicas próprias gravadas. Uma delas, “Desconstrução”, ganhou até videoclipe. “Já temos outras seis músicas engatilhadas e devemos soltar um disco até o fim do ano. Nosso sonho é ser uma banda grande”, pontua Davi Leão (voz, baixo e teclado).

Visitantes do International Beatle Week tiram fotos ao lado da estátua do Fab Four em Liverpool

Visitantes do International Beatle Week tiram fotos ao lado da estátua do Fab Four em Liverpool, durante a edição do festival no ano passado

Condição para tocar no grupo é tirar boas notas na escola

Além de terem a mesma idade e compartilharem a paixão pelo rock’n’roll, os integrantes da Poison Gas têm outra coisa em comum. Os quatro garotos são colegas da mesma sala, no nono ano do ensino fundamental do Colégio Santo Agostinho, em Belo Horizonte. Mas como fazer para equilibrar as atividades musicais e a rotina de estudos escolares? 

Pai do guitarrista Pedrinho, Alexandre Ferreira conta que as famílias dos garotos encontraram na banda uma motivação especial para os estudos. “Nós estabelecemos uma relação muito saudável com eles. A condição para tocarem na banda é que eles mantenham uma boa média na escola. Ficou abaixo da média, não tem ensaio”, explica. “Eles estão no nono ano, que é um dos mais puxados, e têm conseguido ir muito bem, inclusive além da média. Uma coisa incentiva a outra. Já que eles gostam tanto da banda, ficam ainda mais motivados em ir levar a escola a sério”, diz.

Pai de Davi Leão (voz, baixo e teclado) – que levou a medalha de ouro nas “Olimpíadas de Matemática” da escola –, Gustavo Fonseca faz coro. “As atividades da banda são muito intensas. Toda semana eles têm ensaios, shows, gravações. Então, tivemos que colocar a escola como condição para que eles continuem rodando com a banda de forma tão profissional”, explica, lembrando que a banda se apresentou no Festival de Gastronomia de Passaquatro, no último sábado. “Isso motiva eles, todos têm ido bem, passado com boas notas”.

Nos palcos de BH, o Poison Gas já abriu para bandas como Capital Inicial e Skank

Nos palcos de BH, o Poison Gas já abriu para bandas como Capital Inicial e Skank

Companheiros

O baterista Rafael Baino afirma que a convivência contínua ajuda a fortalecer o compromisso com os estudos. “Eu acho fácil conciliar as duas coisas. A gente se encontra para estudar, sempre estudamos juntos nas viagens da banda. Um vai ajudando o outro nas matérias que tem mais dificuldade”, afirma. “O ambiente da banda se mistura com o convívio familiar e escolar. Fazemos tudo juntos e tiramos muito proveito disso”, completa Davi.

Sobre o futuro da banda, Alexandre afirma que os pais tentam manter a trupe com os “pés no chão”. “Apoiamos, incentivamos, acompanhamos nos shows, abrimos mão das nossas horas livres para estar com eles. Mas também somos muito realistas. Apesar de eles serem superprofissionais, têm que saber que pode não dar certo. E não queremos que, caso isso aconteça, sejam adultos frustrados”, coloca. “Apesar disso, sonhamos juntos e temos visto a banda caminhar, com reconhecimento nas redes sociais e novos shows”, diz.