Era para ser um trabalho sob encomenda, em que João das Neves só assinaria a adaptação. Com a desistência do projeto pelos idealizadores, ele resolveu não só montar “Lazarillo de Tormes”, baseada num romance picaresco do século 16, como também voltar a um lugar que não ocupava há 25 anos: o palco.

“Em primeiro lugar, gosto do romance. Depois que desistiram, o texto ficou na minha mão, perguntei a quem tinha encomendado se poderia levar adiante e fiz a direção geral. Além disso, fiquei com vontade de voltar ao palco”, justifica o dramaturgo de 83 anos, que estreia a peça hoje, no Teatro Francisco Nunes.

Ele se reveza com Glicério Rosário na pele de três personagens, entre trabalhadores e patrões envolvidos na reforma de um castelo. Esse contexto, na verdade, pertence a um fato exterior ao romance, quando o texto original foi achado dentro de uma parede, provavelmente escondido da Inquisição.

Por ser muito crítico à sociedade da época, principalmente em relação aos vícios e à hipocrisia dos clérigos, o livro, cujo autor até hoje é desconhecido, entrou para o índice de livros proibidos da Inquisição. Clássico da literatura espanhola, antecede “Dom Quixote” na incursão ao romance picaresco.

Adaptação
João das Neves realizou uma adaptação bastante livre e atual do livro, originalmente escrito em primeira pessoa, na forma de uma longa carta (epístola). “Acrescentamos elementos teatrais e circenses, como a commedia del’arte, as máscaras e a marionete, o que dá uma agilidade muito interessante”.

O ator Glicério do Rosário está gravando atualmente a novela “A Lei do Amor”, de Maria Adelaide do Amaral e Vicent Villari. Ele e João das Neves já trabalharam juntos no espetáculo “Primeiras Histórias”, em 1992

Lazarillo se torna próximo de anti-heróis brasileiros como Macunaíma, Pedro Malasartes, Besouro Cordão de Ouro e João Grilo. “A peça é toda em verso, como na literatura de cordel, que tem uma origem ibérica. Não tive qualquer dificuldade em fazer a aproximação dessas duas culturas”.

João atualiza a crítica à sociedade, especialmente sobre um momento em que, segundo ele, direitos conquistados estão sendo retirados da população mais pobre. “Estamos num instante em que perguntamos qual o futuro do país, o que será de nossas crianças”.

Humor
Mas não se trata de um texto pesado. “A perspectiva é do humor, da trapaça, da brincadeira. Porém, escondem-se coisas muito sérias, tornando-se uma reflexão profunda sobre o momento que estamos vivendo. Crianças estão sendo aliciadas pelo tráfico, exploradas, para poderem viver”, afirma.

Trabalhar com a dupla função de dirigir e atuar não é novidade na carreira de João das Neves. Ele lembra que “O Último Carro”, uma de suas peças mais famosas, encenada na década de 70, também teve essa dobradinha. “A diferença é que aquela tinha 30 atores e agora estou o tempo todo no palco”. 

A receita é: “quando se está lá dentro, ter uma visão dupla, percebendo o que você está fazendo no palco”. No caso dele, ajuda muito um olhar externo, de alguém da equipe técnica, para avaliar o seu desempenho como ator. “A equipe é bem coesa. Todo mundo dá palpite, a gente conversa muito”, sublinha.

Serviço: “Lazarillo de Tormes”, com João das Neves, Glicério Rosário e Rodrigo Cohen – Desta sexta-feira (3) a 19 de março, no Teatro Francisco Nunes (Parque Municipal). Sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 19h. Ingresso: R$ 30 e R$ 15 (meia).