No ano em que o Hoje em Dia completa três décadas de fundação, um dos nomes fundamentais na criação do jornal acaba de ganhar um livro: “Wander Piroli – Uma Manada de Búfalos Dentro do Peito” (Conceito Editorial), biografia assinada pelo poeta e jornalista Fabrício Marques. 

O escritor é lembrado pela ousadia e frescor como marcava a passagem pelas principais redações de Minas. À frente do Hoje em Dia, como diretor-presidente, lançou o primeiro jornal totalmente em cores do Brasil e foi o responsável pela concepção do nome e do logotipo.

“De certo modo, a trajetória de Wander como escritor já era conhecida. Na minha visão, o grande mérito do livro é reconstituir essa passagem pelo Jornalismo, que foi muito marcante. Fiquei impressionado com a atualidade dos temas que buscava abordar, dando espaço a minorias e a assuntos que incomodavam à sociedade”, registra.

“Graciliano Ramos, com seu jeito conciso e direto, e Hemingway, pela construção dos diálogos, foram incorporados e moldados ao estilo dele”
Fabrício Marques
Escritor

Apesar da inegável importância deste belo-horizontino falecido em 2006, a memória não tem sido justa a ele. “Wander falou muito de BH. E, no sentido de (Liev) Tolstói, para quem, para ser universal, é preciso falar de sua aldeia, Wander ajudou a entender o mundo com seus dramas humanos. É um autor essencial nos dias de hoje”.

O esquecimento, de acordo com Marques, deve-se também à própria personalidade do escritor. “Não é uma crítica, mas muitos escritores têm um lado de marketing, lançando um livro que ele mesmo quer divulgar. O Wander era muito avesso a essas coisas. Quando você olha a trajetória dele, não fazia muita questão de lançar livros”.

Documentário

O biógrafo, que tem em comum com o biografado o fato de ter editado o “Suplemento Literário de Minas Gerais”, levou um ano mergulhado em pesquisas e entrevistas. O resultado é uma espécie de documentário escrito, como denomina Marques. 

“Franqueei muito a palavra para os amigos dele, e também para o próprio Wander, possibilitando conhecer o personagem sem intermediários”, conta o autor, que abre o livro lembrando episódio ocorrido em 1975, no Rio de Janeiro, em que uma mesa composta por Piroli virou alvo de público zangado, que chamou os autores de “velhos ultrapassados”.

Marques explica que escolheu o polêmico acontecimento como primeiro capítulo “porque ele sintetizava a personalidade” de Piroli. “Ele era muito tímido e raramente saía de BH, a não ser para pescar. O público foi hostil e ele devolveu a hostilidade, não abaixando a cabeça. No auge da ditadura, ele não tinha medo de falar o que queria”.

Piroli morou no bairro Lagoinha até os 27 anos. “Depois se formou em Direito e saiu de lá. Nunca mais voltou. Mas a Lagoinha continuou presente na obra dele. Foi no bairro que forjou sua visão de mundo para os desvalidos, para as classes menos favorecidas”, pontua.

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