O conjunto bibliográfico sobre os Beatles é extenso e vêm crescendo exponencialmente nos últimos anos. Podemos dizer que, desde 1995, com o projeto “Anthology” (referencial livro de depoimentos e documentário em vídeo), a caixa preta de memórias do grupo e seus integrantes foi definitivamente aberta–e sem data para fechar.

Especialmente no contexto de agora: se assistimos, dos anos 2000 para cá, uma espécie de boom literário envolvendo o tema música, mais do que natural que a banda, signo da maior importância, ganhasse ainda mais páginas na já imensa pilha de tentativas de retratar o grupo ou seus integrantes.

Torna-se então expediente fundamental separar o joio do trigo, saber quem são os narradores mais credíveis destas histórias. Por isso é válido celebrar a existência de “Paul McCartney- A Biografia”, de Philip Norman, lançado pela Companhia das Letras. Testemunha ocular da história (repórter do The Times britânico no auge da Beatlemania), Norman se especializou em traçar bios definitivas de seus personagens. É ele o dono das últimas palavras sobre artistas que mereceram uma enxurrada de obras (muitas delas duvidosas ou sensacionalistas demais) como o fez em “Mick Jagger” (2012) e “John Lennon” (2009).

Para falar de McCartney, Norman segue o padrão que estabeleceu em suas obras: chegar próximo da verdade, o que quer que isso seja, custa tempo para o leitor. Assim como as anteriores, “Paul McCartney- A Biografia” alcança as 800 páginas, uma estatura tão ameaçadora quando animadora para aqueles que desejam a composição de um quadro cheio de detalhes do músico vivo mais importante da contemporaneidade.

Não apenas fãs, mas para todos que desejam entender as mudanças de comportamento que fizeram dos anos 60 um período seminal para entender o mundo, até hoje.

Do garoto quieto, sem nenhum talento aparente para a música, até o senhor que, passadas sete décadas de vida, vai lotar um Mineirão amanhã, o autor mostra preciosa apuração com personagens fundamentais na vida do músico.

No percurso, vale destacar as possibilidades de reavaliação da persona de Paul que Norman permite. O destaque absoluto vai para a desconstrução de Paul como o poster boy dócil, em um parceiro ciumento (seja com Lennon, antigas namoradas ou com Linda), no maconheiro crônico (até os 60 anos), no líder de banda pão duro e por vezes autoritário (seja com os Beatles ou com os Wings) e por aí vai. Aí reside o mérito maior do livro: gênio maior da música pop, Paul McCartney é também um homem, feito de carne osso e defeitos.