Há mais de três décadas, o garçom José Fernandes Pereira atende os fregueses do Café Palhares no mesmo lado do balcão, à direita de quem entra, bem próximo à entrada. Não é uma regra imposta pelos proprietários, mas diz muito sobre o que o restaurante localizado na Rua Tupinambás, no Centro de Belo Horizonte, representa como memória afetiva da cidade.

Com 80 anos recém-completados, o espaço mantém vivas algumas tradições, a começar pelo “kaol” – o prato que tornou o Palhares famoso, nomeado assim pelo compositor Rômulo Paes, na década de 50. Formado por arroz, linguiça, ovo, couve e torresmo, virou referência gastronômica, chamariz culinário de grandes nomes da cultura, dos esportes e da política.

“(O cantor) Agnaldo Timóteo senta bem aí, ao lado de onde você está sentado. Ele anda meio sumido, mas toda vez que vem aqui pede o mesmo prato, com duas linguiças”, observa Pereira, que começou a trabalhar no Palhares quando João Ferreira ainda era vivo. 

Falecido em 2003, ele comprou o espaço em 1944, ao lado de Fuad Houri. “Ele era bem exigente. Se chegasse e visse eles sentados ou lendo um jornal... Era só aproximar que eles imediatamente deixavam o jornal cair no chão para disfarçar”, lembra o garçom, apontando os filhos de Seu João, Luiz Fernando e João Lúcio (foto abaixo), que dão continuidade ao negócio. “Quando garoto, saia daqui às duas horas da manhã, e tinha que ir cedo para a aula. O que acontecia? Dormia na carteira”, lembra João Lúcio.

O local viveu os seus melhores momentos nos anos 50 e 60, quando o Centro era o ponto de convergência cultural. “As pessoas iam para o Montanhês Dancing ou para os cinemas de rua, e depois vinham para cá”, recorda Luiz. Outro marco na história do Palhares foi o fato de ter o primeiro aparelho de TV público em BH. “Meu tio trouxe da Europa e deu um para cada irmão. Meu pai preferiu pôr aqui, com as pessoas tomando toda a rua”.

O Palhares também ficou conhecido como o quartel-general dos esportes. Luiz lembra que, antes de o Mineirão ser inaugurado, o restaurante vendia ingressos para o Independência. “Também divulgávamos os resultados de todos os jogos, numa plaquinha que ficava do lado de fora, além de organizar caravanas de torcida para partidas em outros estados”.

Jogadores faziam do Palhares um ponto de parada obrigatório, assim como políticos. “(Em 1997) Célio de Castro lançou sua candidatura para prefeito aqui”, gaba-se Luiz. Para ele, esse convívio democrático, com clientes de várias esferas em torno de um típico balcão, é um dos charmes do espaço. “Aqui ficam lado a lado lojistas, médicos, advogados, desembargadores... Muitos se tornam amigos assim, sem preconceitos”, garante.