Está sendo um ano tão difícil para o povo brasileiro que Caio Blat até se sente culpado. "Cara, para mim está sendo maravilhoso. Um ano cheio de realizações, e reconhecimento." Por exemplo, Liberdade Liberdade. "Foi lindo, e só a adesão do público às cenas de sexo gay já foi demais. A gente fez sem alarde. Não criou expectativa - vai ter, não vai? O Vinicius (Coimbra) ousou, fazia sentido dentro da dramaturgia. Foi maravilhoso." Agora mesmo, neste finalzinho de 2016, ele se prepara outra grande experiência.

"Estamos indo a Londres." Estamos, nós - engloba a mulher, a atriz Maria Ribeiro, e os filhos. "Fui convidado, único latino-americano, para fazer uma série da BBC, McMafia. Baseia-se num livro investigativo da criminalidade em tempos de globalização. A Máfia como organização multinacional. Vou filmar em Londres e na Croácia, em inglês." Está entusiasmado. Simultaneamente, Caio estará apresentando na Europa - na Alemanha e em Portugal - a peça Comédia Latino-Americana, que encerrou temporada no domingo, em São Paulo. "Foi outra coisa enriquecedora.

Felipe (Hirsch, o diretor) nos fez investigar muitos autores latinos para chegar ao texto final. E nem era um texto final porque ele a toda hora estava mudando. Acho que os europeus vão ficar loucos."

E ainda tem BR 716, que estreou nesta quinta (17). O grande vencedor do Festival de Gramado, em agosto. Caio Blat como Domingos Oliveira - o jovem Domingos. "Cara, foi uma experiência incrível. Conheci o Domingos através da Maria (sua mulher), contaminado pelo olhar dela. A Maria ama o Domingos, tem profunda gratidão por tudo o que ele fez por elas. Na verdade, o Domingos incorporou a Maria como atriz, ela fez um documentário sobre ele. No processo, Maria cresceu muito. Como artista, como pessoa. Domingos é movido a sentimento. Vive num estado de amor, cercado de gente que retribui sua generosidade. Eu acho que ele é único. Domingos é autor da própria vida. Transformou sua biografia em obra de arte. Não são muitos que conseguem isso."

BR 716 retrocede ao começo dos anos 1960. O BR do título refere-se a um endereço. Poderia ser 'Brasil', mas é Barata Ribeiro, uma rua de Copacabana. O jovem Domingos vivia num estado de exaltação etílica, cercado de amigos, mulheres. O jovem meio sem rumo que era. O artista que queria ser. O filme é sobre esse momento. "Antecede sua explosão com Todas as Mulheres do Mundo e Edu, Coração de Ouro. O Domingos anterior a Leila (Diniz). O retorno ao preto e branco, à estética da nouvelle vague." O começo de uma trilogia. Caio destaca os planos descontínuos, a memória inventada. "Eu acho genial essa liberdade que ele se concede. A personagem da Sophie (Charlotte) é pura invenção. Uma suburbana que se constrói uma imagem de glamour. Isso é a essência de Domingos. E, ao mesmo tempo, dentro do grupo, essa mulher idealizada é a que vai partir para a militância política, num momento em que a ditadura está baixando a lenha."

O Brasil inteiro num apartamento. Não mudou tanto assim. Caio Blat acha que, 50 anos depois, uma outra juventude está vivendo em crise, tentando se afirmar, quem sabe mudar esse Brasil. Ele admite sua preocupação. Por toda parte, sente um desejo de manipular. "Acho que as coisas não estão sendo discutidas como deveriam. Do patrocínio à administração pública, está tudo muito emocional." Como é, para um ator, ser Domingos? Como ele criou o seu Domingos? Como deu uma voz a Domingos? "Não foi preciso pensar nesses termos. Ele se colocou no texto, e o texto me deu a chave. A cena me pedia um tom, foi só entregar."


As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.