Um dos maiores cartunistas em atividade no Brasil, Allan Sieber fugirá de um dos aspectos importantes de sua personalidade ao desembarcar esta noite em Belo Horizonte, no Restaurante do Ano (Rua Levindo Lopes, 158 – Savassi), para a exposição “O Papel do Artista”. “Continuo sendo antissocial, estou numa fase ainda pior”, revela. “Só saio de casa para levar meu filho na escola, meu compromisso externo é só com o Max. Não saio para bar, para balada. Detesto”.

Artista de talentos e funções múltiplas –além de quadrinhos, assinou 12 livros, trabalhos no cinema e na TV, em programas como “Casseta & Planeta–este gaúcho exilado no Rio de Janeiro aponta para si outros deslocamentos, mais amplos, em relação ao mundo que o cerca hoje. “É um momento muito sui generis. Esse governo absurdo, uma coisa completamente louca, tendenciosa. Antigamente, ainda tinha um certo pudor, agora está escancarado. É um momento de grande histerismo. Os caras não só estão no poder como deixam claro que estão cagando”, critica.

Depois de 17 anos de tiras e cartuns para a Folha de S.Paulo ele foi demitido, talvez, como desconfia, por ter dado vida à Vicent Satamer, um vampiro cujo rosto era a foto de Michel Temer. Mas, como o personagem que foge da cruz, o artista também escapa de torcidas políticas bem definidas. “São momentos muito histéricos, de ambos os lados. A direita está enlouquecida, mas a esquerda também está muito burra. Dizer que eu sou de esquerda é forte, sempre fui anarquista, apartidário. Sou mais taxado como esquerdista. Mas de ambos os lados vejo muita gente estranha, aprendiz de ditador, cagando regra. Na verdade, eu queria vazar”, confessa.

Enquanto não consegue pouso em lugares como “Argentina, Uruguai, qualquer merda”, por conta do filho pequeno, Sieber segue na atividade por aqui, agora direcionando olhar e discurso para a pintura. “Eu sempre trabalhei com desenho. Seja em ilustração, quadrinhos ou tiras, sempre procurei fugir de um desenho padronizado, variar as técnicas”, explica. “Desde 2006, eu já estava num processo de pintar mais e de fugir um pouco do humor, pesquisando outros caminhos. Apesar da minha pintura perpassar o humor, é diferente de um cartum, uma tira. Hoje faço muito pouco quadrinho. O que eu mais tenho feito mesmo é pintura para vender”, diz. Na capital mineira, serão 25 obras em exposição, que variam em técnica e temática, mas mantêm seu discurso. “O quadrinho e o cartum têm muito texto, não consigo fugir da palavra, do texto. Sempre tem algo escrito ou mesmo uma grafia que se assemelhe a uma letra. Eu diria que é uma derivação, uma depuração do que eu já fazia”, diz.