Maria Callas já vinha “falando” com Christiane Torloni muito antes de a atriz imaginar fazer uma peça sobre a soprano – “Master Class”, cartaz deste final de semana no Teatro Bradesco. “Meus pais são da arte. Eu tive a oportunidade de ter uma educação musical muito boa. Já tinha uma coleção de vinil da Callas. Então, ela vinha falando comigo há muito tempo”, observa a atriz.
 
Essa vivência musical, aliada a alguém que, como a soprano, não desistiu da arte apesar dos muitos traumas pessoais (Torloni perdeu um filho no início dos anos 90), é a chave para acessar a dualidade de uma personagem mostrada no final de sua vida, quando a voz já falhava e foi convidada a dar aulas na Juilliard School, conceituada escola de música em Nova York, no início da década de 70.
 
“Acho que a Callas colocou a serviço da música, da arte e da beleza toda a experiência que ela teceu na vida pessoal”, registra Torloni. Para a atriz brasileira, o subtítulo de sua peça bem que poderia ser “Ensina-me a Viver”, devido à humanidade e profundidade que exalam da personagem. “Apesar de toda a técnica, ela acreditava naquilo que vem do coração e vai forçando isso nos alunos”.
 
O texto de “Master Class”, escrito por Terrence McNally, estreou na Broadway em 1995 e um ano depois foi montado no Brasil, com Marília Pêra (falecida em 2015) no papel principal. “Eu sinto uma passagem de bastão aí, que nem às vezes sinto na televisão. Você começa a herdar papéis, e isso é muito bonito. O texto que uso é o da Marília, que foi de generosidade imensa. Vimos como uma bênção”, afirma.
 
Grande amor
A primeira encenação aconteceu em 2015, mas Torloni teve que interromper a turnê diversas vezes para participar de novelas, provocando longos hiatos. Ela, porém, nunca se desligou da personagem. “É alguém que você vai viver, conviver, aprender e, em algum momento, se despedir fisicamente. Mas, como um grande amor, fica guardado em uma memória emocional”. 
 
Neste ano, a atriz que viveu papéis memoráveis na TV (como a Jô Penteado de “A Gata Comeu?”), completa 40 anos de sua primeira novela como protagonista, “Gina”. Ela lembra que foi muito difícil, principalmente pelo jeito bravo diretor Herval Rossano. “Mas a televisão é incrível porque você aprende fazendo. Não tive curso melhor de formação artística do que a minha experiência na TV Globo e depois na Manchete”, analisa.
 
Ela se prepara para debutar no cinema como diretora, assinando o documentário “O Despertar da Florestania”, sobre a preservação da Amazônia. Uma luta que começou a travar depois de atuar na minissérie “Amazônia – de Galvez a Chico Mendes” (2007). O elenco passou por três dias de workshop na região e foi ali que, segundo ela, recebeu “o beijo”. “A Bela Adormecida, que estava dormindo há 20 anos, acordou naquele momento”, recorda.
 
Serviço: “Master Class” – Sexta e sábado, às 21h, e domingo, às 19h, no Teatro Bradesco (Rua da Bahia, 2244). Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia).