Bairro tradicional e boêmio de Belo Horizonte, Santa Tereza é um espaço físico e simbólico atravessado por complexas questões urbanísticas, sociais e culturais. Quais narrativas estão em disputa na região e como elas se inserem na conjuntura de expansão das grandes cidades? A quem servem e o que buscam a arte, o ativismo e a tecnologia neste contexto e espaço-tempo? Quais formas de resistência podem eclodir diante de retrocessos socioculturais? Como cartografar iniciativas potentes e ativar novas redes de produção que contribuam para uma cidade mais democrática?

Essas são algumas das perguntas levantadas pela quarta edição do Cidade Eletronika, que, neste ano, se debruça sobre Santê. Braço recente do festival Eletronika – cujos 18 anos de existência se completaram em 2017 – o evento leva, nesta sexta (12) e sábado (13), ao Museu da Imagem e do Som (MIS) Santa Tereza e à Benfeitoria, uma intensa e gratuita programação de seminários, oficinais e apresentações artísticas.

“O Cidade Eletronika tem a intenção de pensar questões ligadas ao urbanismo, ao uso da tecnologia e da arte no espaço público, ao ativismo e às formas colaborativas de organização”, afirma Lucas Bambozzi, que assina a curadoria do evento há três anos, ao lado de Natacha Rena.“Neste ano, decidimos tomar o bairro de Santa Tereza como modelo para se pensar a cidade, do micro para o macro”.

Reflexões

A programação se divide em duas frentes: a direta, formada por oficinas e seminários, e a complementar, à cargo das apresentações artísticas. “É muito complexo tentar entender, hoje, a cidade e suas contradições. Por isso, os seminários funcionam como uma grande roda, um encontro intensivo, em que várias visões somam-se num caldeirão de debates e reflexões”, afirma Bambozzi.“A ideia é oferecer alternativas a esse desenvolvimento que vai incorporando recursos e tecnologias e excluindo as faixas menos favorecidas da população”, explica, lembrando que representantes da comunidade ajudarão a balizar as rodas.

Debates sobre temas como a especulação imobiliária e a gentrificação misturam-se a iniciativas de organização colaborativa e de ativismo social e artístico – como as projeções em grande escala, cada vez mais comuns nos centros urbanos. “A projeção é uma espécie de grafite efêmero, uma forma de atribuir significado a superfícies da cidade, um comentário, em imagens, sobre um determinado ambiente”, afirma Bambozzi. “São experimentos que vêm acontecendo nos grandes centros urbanos e que refletem os novos rumos da tecnologia”, completa o curador, lembrando a oficina “Tecnologia Sociais: Arte Pública e Processos Colaborativos”, que acontece nesta sexta e conta com a dinamarquesa Tanya Toft Ag, integrante da Screen City e da Urban Media Art Academy.

Arte

O Cidade Eletronika traz, ainda, uma série de apresentações que transitam entre a música, a performance, o audiovisual e a tecnologia. A programação traz atrações como Sara Não Tem Nome, LivroE, Signal Culture, O Golpe e Chineladaaa. “Muitas vezes, o trabalho artístico complementa a visão de um urbanista ou de um filósofo, de forma subjetiva”, afirma Bambozzi. “Privilegiamos a participação de artistas que vivem em BH e que trazem experiências que não são típicas de um espetáculo, mas compartilhadas com o público de forma mais presente”.

Serviço: Cidade Eletronika 2018. Sexta (12) e sábado (13), no MIS Santa Tereza (praça Duque de Caxias) e na Benfeitoria (rua Sapucaí, 153, Floresta). A programação é gratuita e pode ser conferida pela página do evento no Facebook.