O nome do diretor e produtor mineiro Guilherme Fiúza Zenha ganhou as manchetes dos cadernos de cultura do país, no ano passado, ao se desligar da comissão indicada pelo Ministério da Cultura para escolher o filme brasileiro que representaria o país no Oscar. A alegação foi “motivos pessoais”, mas havia muito mais envolvido no que seria uma simples escolha da melhor produção nacional para o prêmio, com a polêmica em torno de “Aquarius”, cujos realizadores criticaram abertamente, durante o Festival de Cannes, “o golpe de Estado” em curso no Brasil.


No Natal, Fiúza voltou à cena, como diretor de um programa especial para a Rede Globo, “Santino e o Bilhete Premiado”, dentro de um tema que gosta muito: o humor. Em Minas, ele nada contra a corrente fílmica, voltada para as produções de arte. “Os filmes de arte são um cinema que me enchem os olhos, mas não é necessariamente algo que eu deseje fazer”, explica o diretor do infantil “O Menino no Espelho”, gênero que ele exibe uma grande paixão. “Eu sinto uma ausência muito grande de produção audiovisual para esse universo”, sublinha.

Fiúza começou no cinema em 1983, na área de produção, trabalhando em filmes como os de Helvécio Ratton, outro mineiro que abriu portas dentro desse gênero, com “A Dança dos Bonecos”, “Menino Maluquinho” e “Pequenas Estórias”. 

Após estrear na direção com a comédia em curta-metragem “Fui”, ele participou de “5 Frações de uma Quase História”, longa de episódios assinado por oito cineastas. A trama de “145” era a única a mostrar um tom mais abertamente cômico.

Você é um caso raro de cineasta mineiro que deixa explícito seu interesse pelo cinema de gênero, em especial pela comédia. Curiosamente, uma situação que pode lhe deixar meio isolado entre grupos dedicados a filmes de arte...
Na verdade, não é uma questão só de gênero. Eu tenho um compromisso comigo, um desejo de que os filmes sejam vistos sempre e que tenham público. Há também uma vontade de trabalhar com o público infantil e infantojuvenil, chegando até a adolescência. E por aí passa muito a comédia. A gente que é mineiro tem um humor muito específico, bastante inteligente, e isso me agrada muito. Mas meus filmes não têm só a comédia. Eles passam por uma série de questionamentos, e provocam o riso. Com relação a me deixar isolado entre grupos mais interessados em filmes de arte, eu sempre prezei a comunicabilidade. Os filmes de arte são um cinema que me enchem os olhos, mas não é necessariamente algo que eu deseje fazer. Acho importante que sejam feitos, mas acredito que o cinema deva passar por todos esses pedaços, como o humor, a comédia, o choro, a emoção e também arte. 

Esse interesse tem a ver também com o seu início no cinema, trabalhando com produção?
Eu não tomo esse caminho, de dar um roteiro e dizer para alguém ir lá dirigir, como um filme “de produtor”. Eu procuro falar de coisas que estão no meu universo e que são pertinentes a mim, não necessariamente pensando nesse cinema de produção. Uma coisa que também permeia o meu trabalho, além de ser diretor e produtor, é o nível de cuidado com o acabamento, indo do crédito à fotografia, ao casting. Eu entendo os meus filmes como produtos também, mas eles falam de mim, de meus sentimentos.

Atualmente, Fiúza está envolvido na produção do programa “Infância Brasileira”, reunião de histórias de crianças de 6 a 12 anos sobre os arranjos da família, como recasamentos, irmãos emprestados, pais em relações homoafetivas, mães ou pais solteiros


Trabalhar com cineastas como Helvécio Ratton foi importante em sua formação?
Helvécio foi a pessoa que abriu portas para mim e para várias outras pessoas, até porque era um dos poucos que fazia cinema em Minas e extremamente generoso com quem estava querendo começar. No meu processo de formação, havia muito mais do que uma presença estética, mas uma forma de como produzir, de como levantar recursos, como se conectar com algumas peças do mercado, com distribuidores e exibidores. Isso foi vital para mim.

O interesse pelos filmes infantis surgiu ao participar da produção de “A Dança dos Bonecos”, dirigido por Helvécio Ratton?
“A Dança dos Bonecos” é um filme primoroso, uma das coisas mais lindas que a gente já fez dentro desse universo infantil e infantojuvenil. Mas, na verdade, não nasce ali não. Quando terminei o “5 Frações de uma Quase História” (longa-metragem dividido em episódios, lançado em 2007), no qual fui convidado para apresentar uma história, eu queria fazer um filme para adolescentes. Eu sinto uma ausência muito grande de produção audiovisual para esse universo. Sinto necessidade de que eles consigam se ver na tela, vendo as questões deles sendo retratadas. Naquela época eu tinha um texto de um dramaturgo, que acabou não dando certo. Aí me caiu no colo o “Menino no Espelho”, fazendo que me apaixonasse profundamente pelo infantil. Meu desejo continua sendo produzir para essa galerinha que tem menos de 16 anos de idade. É necessário e importante que eles se vejam.

Orientando o ator Mateus Solano no filme "O Menino e o Espelho"


“O Menino e o Espelho” é a tentativa de partir para um filme infantojuvenil mais lúdico, sobre a infância de antigamente, longe de aparelhos eletrônicos. Nesse sentido, o filme alcançou o seu objetivo?
Tem a busca do lúdico, de uma infância que parece perdida, mas tenho uma concepção bastante clara de que a infância é a mesma, o que muda são os gadgets. O que a gente trouxe de novo foi essa coisa tecnológica para dentro da infância. Na cabeça da criança, acho que pensam da mesma forma. O que existe é um acesso diferente à informação. Em relação ao desejo de fazer um filme que fosse lúdico, que fosse belo, que fosse tocante, que fosse divertido, acho que a gente atingiu o objetivo sim. Tenho muito orgulho de “O Menino no Espelho”, por ter um diferencial em relação ao que normalmente se produz no mercado infantil e infantojuvenil no Brasil.

Ao lado de Júlia Nogueira, o produtor mineiro lançou recentemente o livro “Guia de Elaboração de Projetos Audiovisuais – Leis de Incentivo e Fundos de Financiamento”, publicado pela editora Autêntica


Duas décadas depois da criação da Lei do Audiovisual, fora o surgimento de outros mecanismos de financiamento de filmes, há ainda muita dificuldade dos realizadores para adequarem seu projeto aos editais?
Dificuldade de se adequar, não. Acho que a gente tem uma gama muito grande de projetos, de editais, que tendem, cada um, a acatar um determinado tipo de filme. O que sinto é que, na esfera federal, a gente caminhou muito para isso, para se ter uma pluralidade dos editais. O que não sinto muito em nível estadual. O atual governo vem tentando construir uma política, mas de uma forma um pouco lenta, e tateando os caminhos, de como seriam os editais. A minha preocupação é com a origem dos recursos, porque o que se está construindo agora tende a se consolidar, mas não há garantia, em futuros governos, de que essa mesma fonte de recursos seja mantida para o financiamento da produção audiovisual mineira. O que é mais difícil na captação é a gente conseguir um primeiro recurso para o projeto tomar corpo. E a gente não tem ainda no Estado a filosofia de aportar a primeira verba. Isso é histórico, desde o surgimento do “Filme em Minas”. O dinheiro sempre vem na esfera complementar.

 

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Ao lado de Chico Pelúcio nos bastidores do especial "Santino e o Bilhete Premiado"



Você fez um especial de final de ano para a Rede Globo, “Santino e o Bilhete Premiado”. Ainda busca transformar esse filme num longa?
A gente teve um resultado muito bacana com esse especial para a Rede Globo, o que nos deixa muito feliz. Estamos pensando agora, na verdade, um desejo que vem na pré-produção, de ele se tornar uma minissérie, algo em torno de cinco episódios, ou longa-metragem. A gente ainda está discutindo, junto com a Globo Filmes, essas possibilidades. Tenho muita vontade de que “Santino” se torne uma obra um pouco mais extensa, até para dar um pouco mais de corpo. Ao que ele foi proposto, como especial para TV de 40 minutos, acho que ele atingiu o desejo.