Rossana Ghessa era a própria “lei de incentivo” numa época em que o cinema brasileiro não tinha nenhum benefício fiscal. Bonita, famosa e interessada em produzir seus filmes, não pensava duas vezes em bater na porta de um grande distribuidor, no começo da década de 70, para conseguir recursos.

“Naquele tempo, eu era bem estrela e podia chegar num Severiano Ribeiro (proprietário de uma grande rede de salas), que me adiantava dinheiro de exibição”, registra Rossana, que estará nesta segunda-feira (15) em BH para acompanhar a exibição de “Pureza Proibida” no Cine Humberto Mauro, pelo projeto “Curta Circuito”.

O longa, lançado em 1974, foi o primeiro produzido pela empresa da moça, que se encantou com a história de uma freira branca que se apaixona por um negro pescador e adepto do candomblé. “Recebi vários roteiros e um deles me chamou a atenção logo pelo título: ‘A Branca e o Negro’”, assinala.

“Dona do filme”, Rossana escolheu diretor (Alfredo Sternheim), técnicos e atores – ela, claro, no papel da noviça e Zózimo Bulbul como seu amante. “Zózimo era um negro bonito, com um sorriso lindo. Fizemos um casal muito bonito em cena”, recorda aquela que foi considerada uma das musas da pornochanchada (pornô em que as partes íntimas não são tão mostradas).

Musa
O rótulo não a incomoda, ao contrário de outras atrizes que se desnudaram nas telas em comédias picantes. “Pelo contrário, tenho orgulho do que fiz honestamente, com meu talento, sem favor a ninguém. Alguns fiz porque precisava de dinheiro, salienta Rossana, hoje com 74 anos.
Embora tenha feito muitos filmes que não se vinculavam ao gênero, como “Quelé do Pajeú” e “Ana Terra”, a pornochanchada a marcou tanto que, quatro décadas depois, durante a filmagem de “Só Pelo Amor Vale a Vida”, em Santa Rita do Passa Quatro (SP), ela era ainda chamada de “deusa” e “musa”.

“As pessoas não acreditavam que estavam diante da Rossana Ghessa real. Imagine como era isso na época, no auge. O filme que levava o meu nome enchia. Tenho orgulho do nome que fiz no cinema. E nunca tive vergonha de aparecer nua, de mostrar o meu corpo”, destaca.
Ao todo, foram 62 filmes, com cada um deles significando “uma parcela de ensinamento”. Novela, nunca quis fazer. “Ficaria presa a um contrato por um, dois anos. E se quisesse fazer filme, teria que pedir licença, que poderiam dar ou não. Imagina eu pedindo para trabalhar num filme de minha produtora, pedindo licença para trabalhar para mim?”, diverte-se.

Serviço: Sessão comentada de “Pureza Proibida” – Segunda (15), às 20h, no Cine Humberto Mauro/Palácio das Artes (av. Afonso Pena, 1537, Centro). Entrada franca