Nascidos em um regime no qual os objetos, de forma geral, não eram acessíveis, o coletivo de arte cubano Los Carpinteros, fundado na década de 1990, encontrou uma forma peculiar e inegável de refletir a realidade, a estética do reaproveitamento, e levantar questões como a utilidade dos objetos no mundo.

Da carpintaria às peças de lego, os artistas cubanos Marco Castillo e Dagoberto Rodriguez, juntamente com Alexandre Arrechea – que integrou o grupo até 2003 –, produziram inúmeras obras. Parte delas compõe a exposição “Los Carpinteros: Objeto Vital”, que entra em cartaz amanhã no CCBB-BH, em uma espécie de retrospectiva.

O mergulho na obra dos artistas contemporâneos é também um retorno na história recente de Cuba, que está em plena transformação. “Nós construímos uma plataforma de linguagem por meio dos objetos, porque cremos que eles falam. Então detectamos essa possibilidade em objetos inanimados. Como a roupa que veste pode dizer sobre o posicionamento político que tens”, elucida o artista Marco Castillo.

Com mais de 70 ítens (desenhos, aquarelas, esculturas, instalações, vídeos e site specific), a mostra foi dividida em três etapas intituladas “Objeto de Ofício”, “Objeto Possuído” e “Espaço-Objeto” – esse último com fortes referências da arquitetura. 

Estão em exposição obras baseadas em prédios de Havana, de uma época que não se produzia muito e importavam estruturas do leste europeu, “sem muito cuidado estético”, pontua o artista. 

A obra “Sala de Lectura”, que abre a exposição, foi inspirada na estrutura de uma prisão cubana. Na obra cilíndrica de madeira, a pessoa fica no centro e tem visão total de todos os livros que podem ser colocados nos nichos. “Fala um pouco sobre os sistemas de vigilância”, comenta Castillo.

Leituras possíveis
Um carrinho de supermercado e uma lixeira formam um único objeto pelas mãos do coletivo. A obra “Trash – Shopping Cart” leva a refletir sobre o ciclo do consumo. Duas camas que se entrelaçam fazem referência ao romantismo ou mesmo à censura, na obra “Dos Camas”. “Cada pessoa observa a obra conforme sua realidade. Mas tem muitas coisas implícitas nelas. Muitas mensagens a serem decifradas”, esclarece Castillo.

Diante da precariedade de materiais para trabalhar, no início dos anos 90, o grupo que se conheceu durante aulas no Instituto Superior de Artes (ISA), em Havana, fazia aquarelas – que integram esta mostra. “Era uma maneira de deixar no papel coisas que poderíamos criar no futuro quando tivéssemos condições”, rememora Marco. E todas são executáveis. 

O outdoor, que em Cuba é utilizado apenas para propagar ideais políticos de seus governantes, nas mãos dos artistas aparece em “tamanho doméstico”, com frases que remetem à linguagem coloquial do povo. Uma exposição onde figuras distorcidas guardam reflexões, questionamentos e leituras de mundo. 

Serviço: “Los Carpinteros: Objeto Vital”, no CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). De 1º/2 a 3/4. Visitas gratuitas, de quarta a segunda, das 9h às 21h

 

Confira algumas imagens da exposição: