Em “A República”, um dos livros fundantes do saber filosófico, Platão sugeria que os artistas são nocivos para uma sociedade. Apontava isso escorado na ideia de imitação do real, sendo que este real só poderia ser consagrado por Deus. Por exemplo: o que um pintor fazia ao retratar algo da natureza era mimetizar a obra Dele, e portanto, seu ofício era uma algo perigoso e condenável. 

Não à toa, jornalistas são frequentemente criticados por “pensarem que são Deus”: afinal, no cerne da prática noticiosa está dimensionar o “real”, ser a leitura mais exata do que foi o acontecimento. A pretensão de recriar algo e transformá-lo em fato para consumo social é mesmo, por vezes, tarefa sobre-humana. 

Talvez em busca desta precisão, um grupo de pessoas ligadas ao jornalismo recorreram, nos anos 1950, à enquadramentos narrativos pautados por minúcias: a literatura. Tom Wolfe, que morreu na última segunda-feira (o anúncio foi dado apenas ontem), aos 87 anos, devido a uma infecção, possivelmente foi a faceta mais pública do chamado new journalism, faction, ou o jornalismo literário, chancela que conectava o distinto grupo de pessoas caracterizadas acima. 

Em comum, todos tinham a ambição de reportar o cotidiano acionando recursos típicos do romance realista e sua obsessão por descrições. Se Lilian Ross foi uma pioneira, Truman Capote, o autor da obra definitiva (“A Sangue Frio”), Norman Mailer, o polêmico e Gay Talesse (o último dos moicanos vivos) o mais brilhante aluno da sala, Wolfe foi seu representante mais pop. 

Legado

A culpa para esta condição possivelmente é explicada pelo fato de algumas de suas obras terem ganhado as telas de cinema. A vendagem de mais de dois milhões de exemplares de “A Fogueira Das Vaidades”, seu primeiro romance, foi o suficiente para seduzir Brian de Palma a transformar o sagaz retrato de época dos yuppies de Wall Street em um longa estrelado por Tom Hanks, Bruce Willis, Morgan Freeman e Melanie Griffith em 1990. 

A película não reprisou o sucesso do livro– caso raro– diferentemente de “Os Eleitos”. Em 1983, a reportagem de fôlego literário que mostrava a história de pilotos de provas transformados em astronautas ganhou quatro estatuetas do Oscar em sua versão cinematográfica, com Sam Shepard e Dennis Quaid. 

Outro ponto fundamental para dar a Wolfe certa estatura reconhecível foi sua própria figura. Se ao bom jornalista cabe à etiqueta do flanêur, o anônimo observador e narrador das multidões cotidianas, o norte-americano não abria mão de certa fleuma dândi, sempre impecavelmente trajado em ternos de três peças, lenços pendurados no bolso da camisa, relógio de bolso, cabelo perfeitamente arrumado. Todo bom jornalista que se preza– porque Wolfe é referência (ou deveria ser) essencial para a construção de um texto noticioso de qualidade–tem (ou deveria ter) esta figura gravada na mente. 

E afinal, tal caracterização personalista não fez diferença quando ele se infiltrou entre os Merry Pranksters, grupo que acompanhava o escritor Ken Kesey em torno dos experimentos com LSD, que gerou o delicioso “O Teste do Ácido do Refresco Elétrico”, publicado em 1968. Ou quando se embrenhou na alta sociedade nova-iorquina e saiu de lá com “Radical Chic”, reportagem histórica publicada na New York Magazine, em 1970. 

Não é à toa que o termo caiu em uso popular e foi recuperado para batizar o que talvez seja a melhor porta de entrada para sua obra no Brasil: “Radical Chique e o Novo Jornalismo”, lançada em 2005. Ali, aspirantes e veteranos da prática jornalística podem se deliciar com o humor corrosivo e com o estilo amalucado de Wolfe reportando corridas de stock-car ou perfilando socialites. 

Fez isso enchendo páginas de adjetivos, ironias e principalmente, descrições: não à toa, o “New York Times” o chamou de “Balzac da Park Avenue”. Afinal, Deus está nos detalhes.