No mês passado, a 11ª edição do Festival de Leitura de São João del-Rei e Tiradentes (FELIT) homenageou um de seus célebres conterrâneos. O nome em questão é o do escritor e psiquiatra Ronaldo Simões Coelho, uma das grandes referências brasileiras quando o assunto é literatura infantil. O são-joanense assina mais de 60 livros infantis, publicados no Brasil e no exterior, muitos dos quais já foram até recomendados por instituições como a Biblioteca Internacional de Munique. Igualmente apaixonado por suas atividades – a medicina e a literatura – Ronaldo Simões Coelho conversou com o Hoje em Dia sobre sua trajetória profissional, as especificidades da literatura para crianças e a importância de fomentar a leitura na infância.

Quando você começou a escrever literatura? 
Escrevi minha primeira história aos sete, oito anos. Nunca foi publicada. Minha casa era repleta de livros, éramos sete irmãos e muitos primos que moravam conosco. Ler e contar histórias fazia parte do dia a dia. Além disso, a biblioteca pública ficava a poucos metros e fazia parte de minhas visitas, pois ali havia livros muito atraentes.

Você também é médico e equilibra muito bem a psiquiatria com a literatura. Como faz para mediar esses universos? 
A medicina é parceira de todas as atividades artísticas, como a música, a poesia, o romance, a pintura, etc. Quem não conhece obras literárias escritas por médicos? Não vejo como universos distintos, mas próximos.

Qual o prazer de escrever para crianças? Porque escolheu esse caminho?
Escrevo muitos livros que as crianças adotam como sendo para elas. Creio que quem transforma essas obras em literatura infantil não sou eu, mas elas.

Quais os principais temas de seus livros e como você escolhe os assuntos que vai tratar?
De um modo geral, eu não penso em nenhum assunto prévio. A maior das vezes a imaginação vem de um fato concreto que observo, ou de um episódio do dia a dia. Meu último livro, chamado “Não Não e Não” resultou de um telefonema. Minha sobrinha estava falando comigo e interrompia para dizer à filhinha para não fazer isso ou aquilo. Eu então falei com ela que ligaria de novo e desliguei. Alguns minutos depois, mandei o texto, que começa com a menina falando que não quer mais que ela seja sua mãe, pois ela só fala não. A menina põe na internet que está procurando uma nova mãe. Logo, aparece a madrasta do Joãozinho e Maria e, no dia seguinte, a madrastra da Gata Borralheira e, depois, a da Branca de Neve. A menina não quer saber delas e fala que não. Ela conclui que não quer entrevistar mais ninguém e que falou muitas vezes o não. Pensa bem e vê que o melhor é ficar com a mãe.

Seus filhos o inspiraram, nesse sentido?
Muitas vezes, eu inventava histórias e ia de cama em cama contar para cada filho. Uma noite minha única filha falou para eu ir embora. Levei um susto, até que ela me explicou: “Vai escrever para não esquecer”. Passei, então, a escrever e o resultado foi ótimo. A história do menino que passa para a cama do pai toda noite (o livro “O Macaquinho”) nasceu assim e é, até hoje, o livro mais lido por pais e filhos no Brasil.

Os livros infantis costumam ser muito imagéticos. Como você trabalha essa construção visual?
A imaginação é a principal atividade para as crianças. Um guri pega um objeto qualquer e ele pode virar um avião ou qualquer outra coisa. A vassoura se transformou em objeto voador das bruxas não foi à toa.

Dentre suas obras, você tem preferidas? Aquelas que mais te marcaram?
Essa é uma pergunta que me fazem sempre, e a minha resposta é sempre a mesma. Livro é igual filho: a gente fica encantado com o primeiro, o segundo, o terceiro. Mas o último costuma tomar o lugar dos outros por algum tempo.

Você já teve livros indicados pela Biblioteca Internacional da Juventude de Munique. Como foi? 
Eu não me lembro dos detalhes, mas sei que a chefona da Biblioteca Internacional de Munique esteve aqui em Belo Horizonte e me convidou para visitar a biblioteca. Eu fui e lá estavam alguns livros meus. Ela me convidou para ficar algum tempo lá, mas não pude aceitar. A escritora e minha amiga Branca Maria de Paula foi no meu lugar. 

Seus livros já foram traduzidos para outras línguas? Como aconteceram esses lançamentos internacionais? 
Tenho livros em espanhol a pedido de bibliotecas do governo de alguns países, mas sei de traduções piratas também. Em festivais internacionais já ouvi pessoas recitando textos meus sem que soubesse que existiam. São ossos do ofício. Em compensação, já fui convidado para participar de eventos em outros países como a Alemanha.

Como você observa a produção de literatura infantil atualmente no Brasil? 
Diante do que disse antes, infelizmente acho que muitos livros dedicados às crianças são fruto de interesses comerciais.

Mas, na sua opinião, como se deve estimular a leitura na infância?
Já vi livros em escolas que ficam fechados em armários e as chaves longe do alcance dos futuros leitores. Livro e criança devem ser soltos, como tudo que atrai a atenção e a curiosidade.

O que diria a um jovem escritor que está mirando a literatura infantil?
Nadar se aprende nadando. Andar se aprende andando. Cantar se aprende cantando. Ler se aprende lendo. Escrever se aprende escrevendo. Essa lei vale para tudo. É assim.