Neste 2015 que já vai se despedindo, muito se falou sobre Graciliano Ramos (1892–1953), autor alagoano que deixou, como legado, obras que se tornaram clássicas, como "Vidas Secas", "Angústia" e "Memórias do Cárcere", para citar algumas. Mas Graciliano também voltou seu olhar ao público infantil. A boa notícia é que o selo Galerinha, da Editora Record, lançou recentemente a reedição de "Luciana", conto originalmente publicado em 1947, no livro "Insônia".

Luciana, a protagonista do livro, já aparece toda linda (nas ilustrações graciosas de Rosinha) na primeira página, de olho na visita que os pais acabam de receber. Mas não se trata de qualquer visita. Tio Severino, homem de voz nasal, é nome sempre citado na casa da garota, e sempre com reverência. Luciana até espera o chamado para adentrar a sala e se juntar ao grupo, mas não é que os adultos a ignoram?

Não bastasse, ela ainda escuta um comentário instigante: "Esta menina sabe onde o diabo dorme".

Interessante pontuar que Graciliano Ramos se vale de palavras, digamos assim, pouco usuais ao vocabulário de crianças, tais como obliterar, menear e estouvada. Mas, sim, fica também o desafio: não é bacana ter significados a procurar no velho e amigo dicionário?

Tampouco é um livro óbvio... Como assim? Bem, a história é zero tradicional, o que é bom. Vale lembrar, ainda, que, tivesse Graciliano vivo, provavelmente uma modificação seria feita, em prol do politicamente correto (corrente contra a qual nada temos contra).

Mas é um Graciliano. Um clássico. E vale ser conhecido pelos que já tenham idade suficiente para entender um texto que, sim, demanda uma certa gama de informações.