As primeiras lembranças no quintal de casa, os amigos da vila, o divórcio dos pais, o cometa Halley, os desenhos animados da TV, uma inusitada ida à África, dilemas morais, viagens de carro, descobertas incontáveis. O pequeno Antonio tem muitas histórias para contar ou, melhor, recordar. Algumas delas foram pinceladas para o espetáculo “Nu de Botas”, que realizará 20 sessões, a partir de amanhã, no CCBB-BH.

A peça é baseada no livro homônimo de Antonio Prata. A publicação reúne 24 contos inspirados em fatos reais da infância do escritor, sendo que 17 deles foram adaptados para o teatro. 

O pano de fundo é a cidade de São Paulo, onde o autor nasceu no fim dos anos 1970. Com ar cômico, mas, ao mesmo tempo, misterioso, lírico e encantado, cinco atores narram as tramas do ponto de vista de uma criança. “Comecei a ler o livro por acaso, foi o primeiro que li de Antonio. Enquanto lia, me pegava rindo sozinha e eu não sou de rir assim”, relata a diretora da montagem Cristina Moura, que também assina a dramaturgia em parceria com Pedro Brício.

“Ele (Prata) é brilhante porque induz o leitor a construir suas próprias imagens, o público identifica as situações imediatamente. Tem aquela coisa de falar do menino que risca a parede e fica pensando o que vai acontecer depois, quando a mãe o pegar, e, então, tem que arrumar uma saída como enterrar a faca no quintal. O menino não sabe porque pegou a faca, simplesmente percebeu depois que já estava estragando a parede. Tem um olhar para a descoberta do mundo. É um espetáculo divertido e poético”, destaca Cristina. 

Apesar de remeter a situações cotidianas, que causam empatia com o público, Cristina diz, contudo, que não há um sentimento de nostalgia, pois o humor empregado à narrativa transforma os fatos especiais, particulares de quem os contam. 

Outro aspecto para o qual Cristina chama atenção é para a linguagem. Mesmo trazendo o olhar infantil, no palco, é como se fosse um adulto falando. “Ele fala como se estivesse conversando sobre bolsa de valores ou problemas de meio ambiente, porém, as histórias são muito curiosas e humanas”, diz. 

É esse apontamento para a humanidade, inclusive, que arrebatou a diretora. “A peça permite acessar o lugar do humor, mas não um humor bobo, o olhar está sempre na relação com o outro. Fala sobre o aprender, o aceitar o outro – uma coisa que estamos com dificuldade de praticar nos dias de hoje”, conclui.

Serviço: “Nu de Botas”, no CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários), de amanhã a 1º de maio, de sexta a segunda, às 20h. Aos sábados, são duas sessões, às 17h e às 20h. Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia).