As já conhecidas 'crias' dos Pederneiras chegam ao palco para mostrar o trabalho desenvolvido ao longo do ano com maturidade. Os jovens bailarinos dos grupos experimentais de dança - GEDs, do Corpo Cidadão, fruto do projeto social do Grupo Corpo, apresentam três peças no Cine Theatro Brasil no próximo domingo (11), com entrada gratuita.

Desta vez, além de "Tempo", da coreógrafa e ex-bailarina do Grupo Corpo, Sandra Santos, e "Contratempo", com coreografias do próprio Rodrigo Pederneiras, o GED estreia "Fragmentos", peça que fecha a noite com três 'duos' de três coreógrafos diferentes. A obra passeia por estilos distintos da dança: o clássico, o contemporâneo e a dança de salão; de Miriam Tomich, Léo Garcia e Samuel Samways, respectivamente. Além deles, montagem de Ronilson Mário também compõe o programa.

A proposta dessa vez foi diferente. O grupo, acostumado a apenas um tipo de linguagem, a contemporânea, que se assemelha à do Grupo Corpo, teve a oportunidade de experimentar novos lugares e, consequentemente, de pensar de outras formas. É o que conta Samuel: "Fui convidado para fazer o duo da dança de salão, que é a minha base, mas para o espetáculo, eu desconstruí muito dela, principalmente a questão do gênero. Na dança de salão isso é muito forte e limita tanto o processo quanto o resultado. Quem vê o homem forte e maior em cena, pensa que ele vai conduzir tudo. Eu busco transformar nesse sentido." Para ele, o processo de ressignificação com os bailarinos foi efetivo. "Por exemplo, em certos momentos da coreografia, a mulher carrega o homem."

Com 12 anos de existência, o GED já sofreu hiatos e, atualmente, sofre com a falta de verba. Entretanto, isso nunca foi motivo para o esmorecimento do grupo. "É importante dizer que o GED é um grupo muito corajoso, principalmente num país como o nosso, que tem um governo que desestimula o pensar, retirando a arte e a filosofia da educação e que enaltece o trabalho exclusivamente técnico e sem crítica", denuncia Samuel. Para ele, o Grupo desafia exatamente nesse ponto. "Os bailarinos têm pensamento, são politizados, não encaram a dança apenas como movimentação reproduzida. Apesar de serem um grupo de formação, já têm isso desde a base. Isso dá muito orgulho e esperança, no sentido de pensar que esse é o caminho certo, de que é por aí", dispara.

Os grupos experimentais foram criados no Corpo Cidadão para continuar o trabalho de formação e, mais tarde, levar os jovens do projeto para o mercado de trabalho. Desde 2004, GED - Grupo experimental de dança, e GEDU - Grupo experimental de danças urbanas, dão oportunidade para jovens se tornarem melhores pessoas e melhores bailarinos. O GEDU, Grupo experimental de danças urbanas, é o convidado da noite e vai apresentar coreografia de Waldir Marques com trilha do Pato Fu.

Diferenças que agregam

O GED, atualmente, trabalha com 20 bailarinos, é dirigido por Miram Pederneiras e ensaiado por Danielle Pavam, ex-bailarina do Grupo Corpo.

Pode-se dizer que o espetáculo deste ano mostra crescimento e um pré-profissionalismo. "O Grupo é bastante heterogêneo; tem pessoas que vêm de diversos estilos de dança. Essa fusão que acontece do hip hop, com a dança de salão, o clássico e o contemporâneo enriquece o trabalho desenvolvido por eles e mostra a realidade. Porque a realidade é essa diversidade." Para o coreógrafo, existe um padrão nas companhias de dança profissionais que aceitam apenas corpos parecidos. "Isso é artificial. Quando você assiste, brasileiro nenhum se sente representado. Onde estão as idades diferentes, as cores? No Corpo Cidadão, é diferente," avalia Samuel.

A trilha de "Fragmentos" é composta pelo músico Gabriel Cesário. Pato Fu assina a trilha de “Tempo” e os músicos do extinto GIM - Grupo experimental de música - assinam “Contratempo”. 

Serviço: "Tempo Contratempo + Fragmentos", do Grupo Corpo Cidadão. 11 de dezembro, domingo, às 19h00, no Cine Theatro Brasil Vallourec (Av. Amazonas, 315 - Centro). Entrada franca. É necessário chegar meia hora antes do espetáculo para a retirada de ingressos.

*Gabriela Brito