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Obra de Felipe de Ávila foi feita a partir do resíduo coletado em Mariana, combinado com argila terracota

“Tenha fé, porque até do lixão nasce flor”, cravaram os Racionais MCs em “Nego Drama”. Carregado pelo viés social, o emblemático verso também pode ser aplicado à capacidade da arte em transformar o infortúnio em belas e contundentes criações. É o caso, por exemplo, do crime ambiental cometido pela Samarco em 2015, quando o rompimento da barragem de Fundão devastou o subdistrito de Bento Rodrigues, a 35 km de Mariana, além de provocar danos irreversíveis ao Rio Doce.

Apesar de a mineradora ter continuado praticamente impune, passados três anos, a tragédia se mantém em pauta por meio de realizações artísticas de diferentes linguagens. Nas artes visuais, por exemplo, o mineiro Felipe de Ávila tem ganhado destaque na Finlândia, onde vive desde 2013, em função de sua pesquisa acerca da materialidade escultórica do resíduo derramado no desastre em Mariana.

O artista conta que mudou-se para o país europeu por conta de seu mestrado, que explora questões sobre a ruína, abordando destroços e rejeitos em busca de uma memória coletiva. “Eu já morava aqui havia dois anos quando aconteceu a tragédia. Ver aquilo me chocou muito. Senti uma enorme tristeza ao ver a destruição e o caos com o rio e o meio ambiente mas, principalmente, com as imagens da cidade destruída e das pessoas desesperadas. Aquilo me afetou profundamente, por estar vivendo fora do país”, relembra.

“Ao acompanhar as notícias, percebi que, aos poucos, aquele episódio ia sendo obscurecido por diferentes interesses, dando lugar a notícias mais recentes. Então, compreendi a importância de que fossem lançados, constantemente, outros olhares sobre a tragédia”, diz.

Criações

A reflexão impulsionou Ávila a desenvolver trabalhos que trouxessem à tona a urgência em continuar discutindo os impactos do desastre. “Os primeiros trabalhos que realizei através dessa pesquisa foram bem marcantes. São objetos em cerâmica desenvolvidos a partir da lama que causou o desastre e que eu coletei quando visitei o local, um ano depois do ocorrido”, conta. “Nessa época, a lama já havia se solidificado e se apresentava como uma ‘areia terrosa’ que, na pesquisa, eu chamo de resíduo. Esse resíduo cobria toda a superfície do que sobrou de Bento Rodrigues e arredores”. 

O processo de criação deu origem à essa série de cerâmicas intitulada ‘Desvazios’, que consiste de esculturas em formatos retangulares e cilíndricos que remetem à tijolos e a tubulações. “As peças tem um aspecto muito particular trazendo, ao mesmo tempo, a força da cerâmica, a delicadeza do vidro e o vigor frágil e impermanente do ferro. Lançam um olhar sobre a fragilidade das estruturas, tecnologias e relações criadas pelo homem”, afirma Ávila, lembrando que uma das peças integra, hoje, o Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo.

Papel da arte

Esses e outros trabalhos também vão compor a exposição “Resíduo Reside”, que será realizada, em setembro, em Santander, na Espanha, e em outubro, na “Third Space Gallery”, em Helsinki, Finlândia. “Acho importante lembrar que o papel do artista é diferente dos efeitos que temos no mundo. Sem dúvida, nosso trabalho tem impacto na educação, cidadania, multiculturalismo, nas relações psicossociais. Mas esses são efeitos do nosso papel, não o papel em si. Nosso papel é fazer perguntas”, afirma o artista. [/TEXTO]“Então, eu parto da questão de ‘como pensar a arte diante da emergência, do desastre, do conservadorismo e da violência que dominam tantos territórios em um mundo que parece desmoronar ao nosso redor?’”, continua Ávila. “Talvez seja exatamente nesses momentos que a arte se faz mais necessária. Não apenas para garantir nossa sobrevivência mas, principalmente, porque sobreviver não é o bastante”.

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Capa do disco traz foto da lama misturada com dejetos da mineração que devastou Bento Rodrigues

Assunto também ganhou destaque na cena musical mineira

“Rio de lama, Doce, agora amargo /Vem de Mariana, desceu rejeito não tem pra ninguém / E varre cama, e sonho e segue tudo pro além /E diga Vale, quanto vale a vida de alguém?”. Os versos são da canção “Quanto Vale?”, do Djambê, uma das</CW> primeiras bandas mineiras a usar a música para jogar luz sobre o desastre ambiental de Mariana. Lançada em 2016, a faixa traz uma crítica contundente à mineração exploratória e ganhou um videoclipe em que os integrantes aparecem cobertos de lama. 

Em 2017, a banda de metal Carahter também se uniu ao hall de artistas que denunciaram a tragédia em seus trabalhos musicais. O grupo nomeou o disco “TVRVO” justamente em alusão à coloração turva, densa e espessa da lama. “No dia em que a tragédia aconteceu, nós tínhamos um show marcado n’A Obra. Fomos para lá impactados com aquelas cenas e o show foi muito especial, quase uma catarse, porque botamos para fora toda a angústia e a revolta de viver aquilo”, conta o vocalista Renato Rios Neto. 

“Depois do show, veio a ideia de lançar o disco, e achamos primordial falar sobre o assunto. Daí, surgiu o nome turvo e o encarte, feito com fotos reais da lama e dos dejetos da mineração. Além da faixa-título, que também faz alusão à tragédia”, continua Rios Neto. “Acho que o disco também chama atenção para essa ambígua contradição dos metais de Minas, uma riqueza que ao mesmo tempo destrói nosso estado. O disco foi todo orientado por essa necessidade de falar sobre a tragédia, mesmo que seja de maneira indireta, subjetiva, já que a arte não precisa ser panfletária. Mas acredito que, toda vez que o disco tocar, o caso será lembrado”.

Outro grupo de música pesada de Belo Horizonte – e um dos mais emblemáticos da cena– o Concreto lançou, neste ano, o EP “Lama”, que faz referências diretas à tragédia. Um das faixas do trabalho, “Marco da Lama” propõe um jogo de palavras no refrão, em menção à mineradora que causou o desastre em Bento Rodrigues: “Lama / Doença / Marco da Lama”. “O nome do EP diz desse momento de ‘lama’ que vivemos no país e também faz referência à tragédia a em Mariana; prestar nossa homenagem às vítimas e não deixar o desastre ser esquecido”, conta o baixista e vocalista Marcelo Loss, lembrando que a capa também mostra um Congresso Nacional opaco, lamacento e em ruínas. 

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Peça “LAMA” surgiu da necessidade do Grupo Teatro Andante em manter o desastre ambiental em evidência

Peça ressalta a importância de lembrar impactos da tragédia

O crime ambiental cometido pela Samarco em Mariana também tem servido como temática nas artes cênicas. Novo espetáculo do Grupo Teatro Andante, “LAMA” busca exatamente contribuir para o não esquecimento do episódio e colaborar para a necessária reparação dos danos causados pelo desastre. 

O espetáculo experimenta uma nova linguagem que une movimento, composição, sonoridade, vídeo e texto, com uma abordagem drama-túrgica documental e contemporânea. No processo de pesquisa, o grupo passou por contos do escritor pernambucano Marcelino Freire e se deparou com a história de um homem solitário que tinha sido afastado do lugar onde vivia, voltava a ele e não o reconhecia, encontrando-o destruído. 

Algumas perguntas surgiram, então: “O que podemos fazer por essa memória? O que podemos fazer para que não exista uma nova Bento Rodrigues soterrada? De que forma isso nos afeta? Como lidamos com essa situação?. A partir daí, começamos a trabalhar sobre a memória, o lembrar e o esquecer, e sobre o impacto de perder seu lugar. Rapidamente, aproximamos de Mariana e sua terrível tragédia, que a todos nós havia tocado de alguma forma. Concluímos que precisávamos falar sobre isso”, relata a atriz Ângela Mourão, que divide o elenco com Bruna Sobreira e Thiago Amador.

“Estamos a pouco menos de 200 km de Bento Rodrigues e para nós já é fácil nos deixar esquecer e seguir em frente”, sublinha Sobreira. “Não encontramos solução para esses questionamentos, mas entendemos que ampliar a memória coletiva sobre essa história é parte da resistência”, completa a atriz. 

Serviço: “LAMA”. Dias 1º, 2 e 3 de junho, às 20h, no Galpão Cine Horto (Rua Pitangui, 3.613 – Horto). Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).