Enquanto poder público e empresas privadas investem cada vez menos em cultura, o Sesc segue um caminho contrário e se torna um grande protagonista na área. Mesmo em tempos de cortes, suas unidades levam várias ações aos mineiros.

Além da vasta programação presente no centro cultural Sesc Palladium – que completa cinco anos neste mês de agosto –, há ainda vários cursos de arte e cultura realizados em diferentes endereços – no primeiro semestre, foram 2.750 inscritos e, para o segundo, foram abertas 2.216 vagas.

Em entrevista ao Hoje em Dia, o gerente de Ações Culturais do Sesc Minas, Jorge Cabrera, afirma que o maior desafio da instituição para o futuro é conseguir ampliar as ações ligadas à diversidade cultural em todas as suas unidades – mais de 20 em todo o Estado. Confira.

Até uns anos atrás, o Sesc focava mais sua programação no lazer. Depois, passou a investir mais em eventos culturais, especialmente após a inauguração do Sesc Palladium. Quando a instituição entendeu que era importante fazer esse investimento?
Comecei a trabalhar no Sesc na época de preparação para a inauguração do Palladium, e a gente percebeu que o Sesc Minas estava com essa inauguração definindo nova orientação na maneira de fazer cultura no Estado. A partir da inauguração, nós criamos a Gerência de Cultura, que funciona na sede e tem uma equipe técnica dividida por cinco linguagens artísticas. Temos especialistas em música, artes cênicas, audiovisual, artes visuais e literatura. A gerência seria o setor do pensamento macro, que definiria o Programa Cultura Regional, pensado estrategicamente em todos os sentidos, como funciona em outros Sesc do país, inclusive o Departamento Nacional (localizado no Rio de Janeiro). Com a Gerência de Cultura, a gente passou a ter um pensamento mais coerente e de identidade para o Programa Cultura Regional, focado mais no Palladium, que é uma unidade operacional, mas que tem uma particularidade, porque é um centro cultural. Ele foi nosso primeiro centro cultural em Minas Gerais, e depois veio o Sesc JK (na rua Caetés), que está sendo revitalizado. Estamos recuperando algumas características dele.


Como era o investimento em cultura antes do Palladium? Havia o “Minas ao Luar”...
“Minas ao Luar” é de 1994, tem 22 anos de atuação, mas também tínhamos muitas atividades culturais, só que mais voltadas ao lazer e menos ligadas à cultura dentro de um processo de formação, enquanto apresentação artística. Isso mudou após a Gerência de Cultura e a inauguração do Sesc Palladium. Aí o Sesc passou a pensar um programa de atividade artística sempre ligada a uma formação, seja de artista, seja de público. Por isso, houve a criação de um núcleo de arte e educação, acompanhando todas essas atividades que acontecem nas unidades. No Palladium, trabalhamos cinco linguagens artísticas e as hibridações entre elas, pelas quais a gente traz a contemporaneidade para o trabalho do Sesc.

"Quando nós contribuímos para a cultura e a arte, estamos contribuindo para o desenvolvimento humano, para a essência da pessoa em si"

Institucionalmente, qual é a importância de se investir em cultura?
O Sesc é instituição mantida por trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo, e nossos recursos são investidos sempre em ações sociais. A gente parte do princípio que a cultura já é social, porque está ligada ao desenvolvimento humano. Quando nós contribuímos para a cultura e a arte, estamos contribuindo para o desenvolvimento humano, para a essência da pessoa em si. À medida que a gente cria fomento, à medida que a gente cria acesso para que nossas unidades virem espaços de convivência criativa, a gente consegue trabalhar em termos de memória, continuidade de trabalho, de patrimônio imaterial. Existe uma ideia de que ações sociais devem ser feitas somente para pessoas sem recursos, mas não é esse sentido. Queremos fazer o social da cultura de maneira mais ampla, abordando o sentido social da cultura pelo desenvolvimento humano, pela importância de manter a cultura viva em cada localidade.

Gerente de Ações Culturais do Sesc Minas, Jorge Cabrera

 

Quais são as estratégias na área da cultura para os equipamentos do interior e da periferia da capital? Há uma intenção de expandir a programação cultural para os outros equipamentos do Sesc?
Enquanto equipamento cultural temos Sesc Palladium e o Sesc JK, mas dentro das outras unidades temos os espaços de Diversidade Cultural. Já há um funcionando no Sesc Venda Nova e em cerca de cinco cidades do interior. Tem se consolidado ao longo de três ou quatro anos. Esses espaços não são centros culturais, pois possuem estrutura maior de investimento, mas dentro da unidade trabalhamos a cultura de maneira ampliada, no sentido artístico, mas também no sentido da transversalidade. Uma horta, por exemplo, pode trazer a gastronomia mineira para o discurso da cultura. Isso é tão importante quanto uma apresentação artística. Nesses espaços estamos conseguindo diálogo com outras áreas, especialmente educação e assistência, e levando uma programação cultural diferenciada, que é o nosso grande desafio para 2017. Nosso foco para o ano que vem é intensificar a programação, potencializando espaços de Diversidade Cultural e ampliando para outras unidades que ainda não têm esse conceito. Esses cursos de arte e cultura têm dado frutos maravilhosos em todo o Estado, porque a partir dos cursos foram criando grupos de experimentação e pesquisa. São programas de sensibilização, para um público diversificado, não somente para artistas, mas para quem tem inquietação e quer se descobrir nesses caminhos.

Como se dá o diálogo com os Sescs de outros Estados, especialmente com o de São Paulo, que é a maior referência nacional quando o assunto é gestão cultural?
Temos parcerias, estamos de portas abertas para as trocas. Mas ela se potencializa mais nas trocas de conhecimento. O Departamento Nacional propicia encontros nacionais em que há troca entre as regionais, a gente consegue ter um panorama de como cada estado está dentro de suas particularidades. Há muitas trocas também por telefone e e-mail, em que compartilhamos questões técnicas.

Os cinco anos do Sesc Palladium serão comemorados ao longo de todo o mês com diversas atrações. Confira a programação completa clicando aqui

Como será a programação comemorativa dos cinco anos do Sesc Palladium em agosto?
Estamos sempre pensando em temas de interesse atual. Na Virada Cultural de BH, a gente tratou Arte e Política e, para o aniversário, estamos trazendo o tema “A Palavra”, que é uma temática bem contemporânea, que permeia todas as linguagens artísticas. Estamos trazendo exposição de uma artista bem conceituada que é Rosana Ricalde (a mostra “Palavras Compartilhadas”), que vem do Departamento Nacional do Sesc. Também vem Maria Bethânia, que apresenta um espetáculo com uma carga bem poética. Também receberemos o Antônio Nóbrega...

Antes da existência do Palladium, havia apenas um equipamento na cidade tão completo, com grande teatro e outras várias salas, o Palácio das Artes. Mas o Palácio, embora tenha muita programação gratuita, causa um certo impacto em muitos. Há várias pessoas que não se sentem à vontade para entrar lá. No Palladium acontece o mesmo ou as pessoas que frequentam o centro de BH também prestigiam o espaço?
Em primeiro lugar, a gente tem que derrubar a própria história da cultura como algo para uma elite. Isso é algo ligado a uma história do século 19, quando a cultura era feita para uma classe social que tinha acesso, era algo que dava status e diferenciação. Cultura era ligada a cosias supérfluas. Mesmo no século 21, ainda temos herança do século 19. Aos poucos, no século 20 o acesso para cultura foi se democratizando e passamos a entender que a cultura tinha de ser vista num campo ampliado e não só restrito ao “bom gosto” ou “bom olhar”, é uma questão muito mais significativa. A cultura é essência social, é ligada ao desenvolvimento humano, e é estratégica porque hoje em dia a gente vê (cultura) dentro dos planos da Unesco e de todas empresas ligadas ao desenvolvimento humano. Hoje em dia as cidades não podem ser planejadas se não for a partir de uma análise cultural. Hoje em dia nossa grande luta é que as pessoas se sintam à vontade dentro do Palladium ou com a programação oferecida no espaço. Tem muita programação, gratuita em sua maior parte, e quando são para pagantes, os preços são muito simbólicos. Por isso temos um programa educacional muito bacana voltada para escolas públicas e privadas, trabalhando na essência, que é o público infantil.