O pequeno leitor recebe um livro com a turminha de “O Show da Luna” e encontra um personagem que leva o seu nome e as suas características, tornando-se tão protagonista da aventura quanto Luna, Júpiter e o furão Cláudio. O que antes seria apenas fruto da imaginação das crianças agora é uma interessante solução para os papais diminuírem o tempo dos filhos com brinquedos modernos como computador, videogame e celular.

Palavra da moda, a customização chegou com força ao mercado editorial, hoje às voltas com números desanimadores em matéria de venda. “A gente percebe que existe uma preocupação geral das famílias, assustadas com as mudanças tecnológicas e de comportamento. Quando chega um tablet, é aquele arraso”, registra Kiko Mistrorigo, um dos sócios da TV PinGuim, produtora responsável por “O Show de Luna”, animação que acaba de ganhar o formato de livro personalizado.

Mistrorigo enxerga nessa iniciativa um grande estímulo para a criança ler, de uma forma engraçada e curiosa, ao incluir seu avatar (palavra bem própria do mundo virtual; o mesmo que ter uma identidade no ciberespaço) no site da editora, recebendo poucos dias depois o livro físico em que ela é parte central da trama. 

Para o criador de Luna e “Peixonauta”, outra animação de sucesso entre a criançada, a tecnologia jamais substituirá o prazer em pegar num livro.

De suma importância para ele é ter o controle sobre o conteúdo que será destinado ao público mirim. “A gente sempre se colocou no mercado como uma produtora de conteúdo infantil, trabalhando com as várias mídias. Quando criamos uma marca de repercussão como a Luna, automaticamente assumimos uma responsabilidade em ocupar os espaços com essa marca, cuidando dela e da preservação de seus conceitos”, registra.

Educação
A PinGuim não só licencia o produto como também entrega todo o material pronto à editora. O texto tem base pedagógica, uma das preocupações de Mistrorigo. “Queremos usar a força da personagem em produções de material didático, por exemplo. Observamos que, no Brasil, havia um preconceito grande na utilizações de personagens de TV, considerados comerciais. É como se entretenimento ficasse de um lado e a educação do outro”, analisa.

Sonho que começa a ser concretizado, com o lançamento de quatro livros de conhecimentos gerais para adoção no ensino fundamental 1. “É como se fosse um almanaque de ciências da Luna, que sempre foi muito curiosa sobre tudo. Desde o início, a personagem esteve na linha tênue entre o educativo e o entretenimento”, explica o criador, que destaca a importância de “Peixonauta” para mostrar a necessidade de fazer editais para fomentar o setor de animação. 

O Show da Luna

O desenho do Peixonauta foi exportado para mais de 80 países desde que foi lançado, em 2009. Já “O Show da Luna”, que ganhará uma segunda temporada, já está beirando a casa dos cem. “Agora mesmo fechei com Portugal”. 

Sete episódios inéditos serão reunidos para integrar um filme. Em julho, chegará às salas o longa-metragem do Peixonauta, em 3D. A PinGuim também trabalha na criação de animações, como “Pingue-Pongue”, sobre o universo da música.


‘Muita gente quer se tornar um personagem do Mauricio’ 

Novidade no mercado editorial, a customização já vem sendo implantada em diversos segmentos, do vestuário ao automobilístico, como ressalta Flávio Aguiar, um dos proprietários da editora Dentro da História, responsável por adaptar as histórias de “O Show da Luna” e da “Turma da Mônica” para um livro personalizado.

“Esse produto dá possibilidade para que os pais criem experiências que eduquem tanto no universo online quanto offline. Hoje esses universos são uma coisa só, a partir de uma geração que já nasce sabendo lidar com tecnologia”, observa Flávio, destacando que não é só o mercado editorial que está sendo impactado pelo mundo virtual.

O leitor mirim começa navegando pelo site da editora, onde seleciona as características de seu personagem, como olhos, cabelo, roupa, acessórios e até aparelho de dentes e cadeira de rodas. Depois ele é inserido numa história e o material enviado para impressão. O livro é remetido para a casa do comprador em até cinco dias úteis, pelo valor de R$ 49, mais o frete.

Depois de disponibilizar suas características pessoais no site da editora, o leitor vira um personagem central do livro “O Show da Luna”

Interesse compartilhado
“A gente percebe que há uma ampliação do vínculo entre pais e filhos, pois os primeiros se interessam em ler junto, participando daquele momento. Não é uma chupeta eletrônica”, salienta Flávio. O desejo da editora é criar, no futuro, uma maneira de as histórias serem adaptadas também, ao gosto do leitor.

No caso da Mauricio de Sousa Produções (MASP), a entrada nesse nicho nada tem a ver com crise. “Temos uma participação de mercado de mais de 80%. De acordo com o instituto Nielsen, Mauricio de Sousa é um dos três maiores autores em vendas, junto com o padre Marcelo Rossi e Augusto Cury”, afirma Rodrigo Paiva, diretor de licenciamento da MASP.

Estar na internet é uma consequência desse sucesso: a página no YouTube está no top 3 entre as mais acessadas no Brasil, com mais de 3 milhões e 600 mil views por dia. No caso dos livros personalizados, Paiva vê como uma resposta a uma demanda de anos dos leitores: “Muita gente quer se tornar um personagem do Mauricio”, afirma. 

Outro ponto favorável nesse segmento, na visão de Paiva, é a eliminação dos intermediários entre a editora e os leitores. “É uma alternativa de venda direta, não dependendo dos pontos de venda tradicionais”, aprova o diretor, que espera oferecer a novidade também para as escolas, com temas didáticos. 


Produtos digitais infantis são ‘respeitadíssimos’ no exterior

Criadora do livro-aplicativo “Quanto Bumbum!”, que está sendo lançado pela editora Caixote, Isabel Malzoni pondera que há uma tendência clara de as crianças terem cada vez mais acesso às telas interativas. Mas não concorda, como muitos afirmam, que essa seja a causa de estarem lendo menos no impresso.

“Pequenos Grandes Contos de Verdade”– Primeiro lugar na categoria Infantil Digital do Prêmio Jabuti
“Pequenos Grandes Contos de Verdade”– Primeiro lugar na categoria Infantil Digital do Prêmio Jabuti

“São experiências totalmente distintas. Como disse Aline Frederico, uma especialista em leitura digital para crianças que está fazendo seu doutorado em Cambridge, se for para pensar em substituição, talvez as telas interativas, como tablets e celulares, substituam um pouco do tempo que elas passam em frente à televisão”, analisa.

Para Isabel, essa troca pode ser boa, já que as telas interativas proporcionam uma relação mais ativa do que a TV, com as crianças não se restringindo a assistir. Ela lembra que, no Brasil, escolas já passam a adotar livros interativos e outros produtos digitais em sala de aula – o que, diz a autora, já é uma realidade importante em países desenvolvidos.

Isabel pondera que os produtos digitais infantis já existem em bom número no exterior “e são respeitadíssimos”, destacando a organização Common Sense Media e o Children’s Tech Review, “apenas para citar dois sites grandes e com muito bom conteúdo”, além de instituições como Diversity in Apps e Literacy Apps.

Investimento
A autora também é proprietária da Caixote e adianta que continuará investindo forte no segmento. O primeiro livro foi “Pequenos Grandes Contos de Verdade”, que ganhou o primeiro lugar na categoria Infantil Digital do Prêmio Jabuti. “A existência dessa categoria por si só já é uma vitória e um indício do aumento do consumo deste tipo de livro”, ressalta.

A preferência por apps é justificada pelo formato, que oferece possibilidades digitais mais interessantes em prol da experiência de leitura. “E encaixa muito bem com os livros infantis, já que as crianças esperam as animações, as interatividades e uma complexidade de sons que não seria possível com os e-books”, avalia Isabel. 


Além disso

No lugar de criar livros customizados, o escritor carioca Alan Marinho apostou no aumento da interatividade, possibilitando a leitura simultânea por até três pessoas, todas elas decidindo os rumos da história.

Na trilogia “O Policial, o Ladrão e a Vítima”, o leitor mirim “entrará para dentro do livro, virando um personagem e tomando as principais ações da trama, que podem culminar em diferentes finais”, explica o autor.

As crianças poderão optar entre ser um dos três personagens do título, tendo eles o mesmo ponto de partida: um assalto a banco sob diferentes perspectivas. “As ações de um afetam na leitura dos outros”, registra.

Alan define a sua proposta como “literatura interativa conjunta”, mas o livro possibilita avançar na narrativa com um só leitor. “Todo esse trabalho tem uma preocupação educacional. No caso do ladrão, o leitor é levado a pensar que nem sempre poderá contar com a sorte”.