Antes mesmo de completar dez anos de idade, o desenhista, editor e escritor de histórias em quadrinhos Fernando Rebouças já tinha eleito, como uma de suas atividades favoritas, o hábito de criar histórias e personagens. “Para o desenhista, criar nos faz existir e ajudar na existência de outros seres”, diz o artista, autor da turma do Oi! O Tucano Ecologista, cuja repercussão ultrapassou as fronteiras do país, chegando a locais como Moçambique.

Graduado em Propaganda e Marketing, pós-graduado em Produção Editorial com cursos extracurriculares em sustentabilidade, Rebouças já publicou tiras e quadrinhos em diversos jornais e revistas do Brasil e exterior, bem como livros e gibis.

Mas não só. À frente do site oiarte.com, que veicula conteúdo exclusivo de seus personagens ecológicos, o também jornalista (membro da Associação Brasileira de Imprensa Internacional) colhe os louros por ter abraçado, meio que
avant la lettre, uma causa que está mais em voga do que nunca: a ecologia. Com vários projetos no front, ele conversou com o Hoje em Dia sobre seu trabalho. Confira!
 
Quando localiza o despertar de sua atenção para o desenho e, num recorte mais específico, para o universo dos quadrinhos?
 
Na minha infância, já tinha o hábito de ler quadrinhos e histórias infantis, principalmente, os quadrinhos de humor inocente e os de ação, incluindo os de super-heróis. Antes dos dez anos de idade, criar histórias e personagens era uma de minhas brincadeiras favoritas. Ainda na minha infância criei o personagem Oi! O Tucano Ecologista (tucano amarelo) e o Falei (tucano cor de abóbora), e logo depois a Nhoca (uma minhoca vermelha que possui o psicológico de uma criança de 6 anos). Desenhava de tudo, quando descobri a escrita na minha vida, percebi que as histórias em quadrinhos eram a melhor possibilidade de unir texto, ação e imagem.
 
Tendo começado a desenhar quadrinhos ainda criança, quais foram as reações aferidas?
 
Lembro que tinha facilidade de desenhar os personagens mais difíceis dos desenhos animados norte-americanos e europeus – infelizmente, não tenho mais esses desenhos – e isso impressionava parentes e amigos de escola. Na escola, vale ressaltar que, na minha geração, o computador já existia, mas não era comum na casa das pessoas, e,
como gostava de desenhar e escrever ao mesmo tempo, era um dos líderes naturais na hora de organizar um trabalho escolar em grupo, eu desenhava as capas e os murais à mão livre. Na escola, não deixava a professora colar meus desenhos nos murais da sala e da escola – pois os meus desenhos eram “roubados”. Um dos mais bonitos, feito para a Copa 94, foi roubado no primeiro dia de exposição. Até hoje, nunca fiz uma exposição profissional numa galeria.
 
Quando percebeu que, sim, era esse mesmo o seu caminho de vida, sem volta?
 
A volta existe, e precisa existir. Nós, artistas, precisamos ser profissionais como artistas e como “não-artistas”, tanto que estudei e me formei em outras áreas. Mas desenhar para mim é quase um sinônimo de existência, é como estar conectado a outros universos que justificam a origem e o caminho de minha vida e não somente a
direção de um caminho profissional. Atuar profissionalmente como desenhista é importante também, mas me refiro ao processo de criação. Para o desenhista, criar nos faz existir e ajuda na existência de outros seres. Seja no contexto técnico ou criativo, tudo depende do desenho, e o desenho artístico sensibiliza, emociona, educa e descreve mais rápido para o ser humano.
 
Quando resolveu linkar o seu talento para o desenho com a questão que hoje envolve cada vez mais pessoas, a da sustentabilidade, da preocupação com o meio ambiente?
 
Quando criei o personagem e suas primeiras histórias, não conhecia outros autores que já haviam desenhado e escrito muito sobre ecologia – claro que já existiam, mas não conhecia. Percebia que as minhas escolas não tinham material ecológico para leitura. Naquele tempo, eu entendia que as árvores eram importantes para o rios, para a nossa respiração, para os animais e para a própria produção de alimentos e produtos. E por que o homem gostava de queimar árvores? Por que as pessoas sujavam a minha rua? Por que o combustível precisava poluir a atmosfera?
Várias perguntas me inspiraram a começar a desenhar sobre ecologia e a ler sobre essa ciência tão nova no contexto das ciências naturais e tão presente nos tópicos das ciências sociais e econômicas.
 
Pode esmiuçar os projetos que estão em curso? O trabalho que prepara para a 21ª Conferência do Clima (COP 21, que acontece em dezembro, em Paris, tendo como principal objetivo engendrar um acordo para minimizar a emissão de gases de efeito estufa, diminuindo o aquecimento global) merece um capítulo à parte...
 
No final dos anos 1990, comecei a planejar as primeiras publicações profissionais que geraram o primeiro livro do Oi! O Tucano Ecologista. Nos anos recentes, para ter mais independência na produção e precificação, abri um selo editorial independente para lançar os gibis coloridos do Oi! O Tucano Ecologista no site: loja.oiarte.com Consegui publicar quatro números sem patrocínios, e estou para lançar um livro com formato de revista que será comercializado com impressão sob demanda. O gibi 05 ainda está engavetado por falta de verba e por culpa da alta do dólar. No Brasil, ainda preciso explicar para escolas e empresas o que é “quadrinho ecológico”. Dentre as publicações digitais, lancei na Amazon três livros inéditos em PDF, nos quais o leitor pode ler e escolher o final das histórias. Já publiquei tiras diárias durante a realização de eventos como COP15, COP16 e Rio+20. Estive pessoalmente na Rio+20 e, neste ano de 2015, farei tiras diárias sobre a COP 21 Paris, as tiras serão publicadas em português e inglês. A tradução foi feita por Fernanda Rocha, uma aluna da Schumacher College da Inglaterra, uma das maiores universidades do mundo em cursos de ecologia e áreas holísticas. A estudante se ofereceu para traduzir meus desenhos como voluntária. Talvez eu consiga traduzir também para o espanhol – no exterior, muitas pessoas gostam de ajudar.

Como se processou a reverberação de seu trabalho no exterior? Muito bacana o fato de ser publicado em Moçambique!
 
Começou nos Estados Unidos, em jornais e revistas independentes em língua portuguesa e inglesa. O primeiro jornal foi o Brazilian Times. Até hoje, estou no jornal Gazeta News, onde tive uma coluna com textos e tiras ecológicas e, atualmente, mantenho somente as tiras. Considerando as colaborações oficiais, publiquei tiras em português, inglês e espanhol nos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Moçambique. Mas, já encontrei quadrinhos meus veiculados em sites da Índia e da Rússia, por exemplo. Em Moçambique, colaborei com o jornal @Verdade, primeiro semanário gratuito daquele país, por algum tempo os quadrinhos do Oi! O Tucano Ecologista foram a única tira publicada na imprensa de todo o país. Fui entrevistado e largamente divulgado por eles com publicação de passatempos especiais do personagem no dia da criança moçambicana. Na época, o jornal moçambicano havia sido tema de reportagem da CNN Internacional, sendo o jornal indicado como um dos marcos do acesso à informação na África lusófona. No Brasil, também tenho publicações com passagens pelo jornal O Globo, revistas da Editora Escala, jornais regionais, etc.
 
Poderia nos contar das reações que colhe – na internet, por exemplo – referentes ao seu trabalho? Alguma (reação) em particular te tocou sobremaneira, te emocionou? Porque imagino que atinja as pessoas de uma maneira muito particular, justamente pelo universo pelo qual transita (a questão do meio ambiente)...
 
Nas redes sociais, o personagem possui presença no Facebook, Twitter e Google Plus. Também chegam e-mails de professores e editoras pedindo autorização para uso de imagens em livros e salas de aula. Em 2011, crianças de uma pequena escola do Pará viram uma tira minha veiculada num livro didático e me chamaram para ir conhecê-los, mas a escola não teve condições de me convidar. Nas redes sociais, os brasileiros compartilham e curtem, mas não participam muito no sentido de consumir mais os gibis e livros. Quando posto algo em língua inglesa nas redes sociais, os estrangeiros curtem, compartilham, perguntam “onde podem comprar os meus gibis no país deles”, o que ainda não é possível. No Brasil, o que me emociona são crianças e professores que postam que estão levando os quadrinhos para casa e para sala de aula. O Oi! O Tucano Ecologista aborda assuntos ecológicos e culturais e isso ajuda na identificação da ecologia no cotidiano. Sou um homem simples, mas sei que o trabalho de uma formiga pode atingir vários formigueiros.
 
No cômputo geral, entende que estamos avançando na questão do meio ambiente considerando-se que esse assunto está na pauta do dia, ou, mesmo assim, ainda estamos numa situação preocupante?
 
A situação é mais preocupante. Eles buscam, em nível governamental, redigir documentos robustos e avançar no debate. Devemos lembrar que o documento mais robusto de nossa história, a Declaração Universal dos Direitos Humanos é desrespeitada até hoje e, em vez de avançarmos no debate, deveríamos avançar no entendimento. Eles gastam muito dinheiro com eventos e reuniões, transformam as questões ambientais em vitrine de poder, mas o verdadeiro entendimento é educar um novo homem para formarmos uma nova sociedade. Em 2013, enviei carta para a ONU
sugerindo educação e arte ambiental em todo o mundo, principalmente para as crianças mais pobres. Antes de assinarem qualquer documento, muitos líderes mundiais nunca leram algo sobre ecologia na vida – muitos já estudaram o assunto, não vamos generalizar –, mas no final não são os cientistas, os educadores e os biólogos que assinam os documentos. Quem assina? E quem patrocina os signatários? Não adianta nós desenharmos, educarmos e divulgarmos a melhor ecologia e a melhor cultura inclusiva, enquanto o planeta é queimado do lado de fora da janela. A carta que enviei para a ONU em 2013, nunca foi respondida. Mas a arte de desenhar ainda me ajuda a conectar todos os universos da vida.