“Tenho 1.897.564 projetos”, diverte-se Kiko Goifman, escolhendo um número qualquer para falar das muitas ideias em mente. “Não paramos um segundo na nossa área. Depois dizem que não trabalhamos”, completa o diretor mineiro, radicado há 25 anos em terras paulistanas, referindo-se também a uma pergunta do Hoje em Dia, quando observou que, na visão dos conservadores, a Cultura é como “uma ‘boquinha’ para os artistas”.

Contrário ao impeachment de Dilma Rousseff, o premiado diretor de “33”, “FilmeFobia” e “Periscópio” revela um certo medo sobre o que acontecerá com o setor. “Espero, ao menos, que não existam boicotes a artistas que questionem o governo que aí está”, comenta. Nesta entrevista, ele fala do início da carreira na videoarte e de temas caros à obra dele, como a violência e a cidade, além do desejo de fazer um filme sobre uma grande paixão, o Atlético. “Estou totalmente à disposição. Paro tudo já!”.

Sempre quando há uma mudança de perfil do Festival de Brasília, o cinema mineiro ganha evidência. Aconteceu em 2010, quando “O Céu Sobre os Ombros”, “Residentes” e “Contagem” foram premiados. Nesse ano os mineiros também foram bastante premiados. Você enxerga elementos diferentes nessa produção, talvez vinculada à videoarte que também lhe influenciou, no início de sua carreira?

Acompanho sempre o Festival de Brasília e a produção mineira. São muitos amigos que tenho em BH e seguir o cinema mineiro é quase natural, espontâneo. Por outro lado, estar de olho no Festival de Brasília é sempre uma forma de se atualizar a respeito de cinema brasileiro. Toda a tradição do Festival, aliada ao fato de que somente filmes brasileiros são exibidos, nos coloca em sintonia com um tipo de cinema que não é aquele de blockbusters internacionais que já dominam alguns grandes festivais. Brasília traz a dimensão de um cinema político em um sentido amplo.

Esta política não é apenas temática, mas estética também. E o cinema produzido em Minas (apesar de ser difícil generalizar pela imensa variedade dos filmes) carrega uma preocupação com linguagem audiovisual. Ou seja, me parece natural um destaque do cinema mineiro no Festival.

Não sou exatamente bairrista, até porque sai de Belo Horizonte em 1991, para fazer Mestrado em Multimeios na UNICAMP e depois vim morar em São Paulo capital. São mais de 25 anos fora, mas sempre acompanho a produção de BH, como também a de Recife, local onde tenho muitos amigos, e Porto Alegre. Curiosamente, moro em São Paulo mas me interesso com força pelo cinema produzido fora do eixo Rio-São Paulo.

 

Você fazia muitas instalações no começo, mas, curiosamente, voltou-se para o formato mais tradicional, de exibição no cinema e na TV. Por que?

 


A preocupação política com a linguagem – forma, estética – é visível neste chamado cinema mineiro (como qualquer rótulo, limitador). Creio que, de alguma forma, a videoarte que foi importante no início da minha carreira também marca este cinema produzido atualmente em Belo Horizonte. Digo isso porque sinto que quando produzíamos nossos trabalhos naquele momento – anos 80/90 – vivenciávamos uma experiência incrível de liberdade. Naquela época o audiovisual se separava em termos de turmas, o cinema e o vídeo. E a gente, do vídeo, não era exatamente bem-visto. Mas estufávamos o peito e fazíamos o que gostávamos, pois não tínhamos o peso da produção cinematográfica tradicional. Criávamos mundos alucinados em nossos trabalhos – no meu caso, relacionando videoarte e documentário –, alguns muito interessantes, outros ingênuos – mas tínhamos uma volúpia de produzir. Me lembro que acompanhei o set de um amigo aqui em São Paulo. Ele não sabia como rodar o primeiro plano. Mais de uma hora parado olhando para a câmera e para a locação. Chegou Éder Santos de BH, também um amigo comum. Diante daquilo, o Éder pediu licença, pegou a câmera, deu um REC e começou a correr com ela ligada. Depois entregou para o diretor e disse: “Pronto, você já começou a filmar”. O diretor saiu da imobilidade, do próprio “endeusamento”, do primeiro plano a ser filmado, e começou a rodar.
 

Kiko Goifman


Quando você começou a deixar esse universo?

Acho que a videoarte marca a minha produção tanto pelo sentimento de liberdade inicial quanto pela forma, materializada nos meus trabalhos de videoinstalações e webarte. Porém, em um certo momento, senti vontade de produzir para a tela única, do cinema, principalmente. Só não posso concordar com a palavra “tradicional” da pergunta (anterior), porque me dedico a um cinema de experimentação. Costumo dizer que abandonei a minha “vida de artista”, de exposições, por ter vergonha de não saber desenhar nem um “boneco palito”, uma “casinha com árvore”. Claro que isso é uma brincadeira, mas na primeira década dos anos 2000 aconteceu uma retrospectiva do meu trabalho no Festival de Toulouse e me ofereceram a ocupação de todas as salas do museu de Belas Artes da cidade. Ocupamos com trabalhos que fiz, em grande parte, com parceiros como Jurandir Muller e Claudia Priscilla. Mas a sala que mais gostei foi uma que só tinha a projeção de “Morte Densa”, nenhuma intervenção tridimensional (risos). Cinema puro. Desde 2002 quando estive pela primeira vez no Festival de Cinema de Locarno fiz uma migração para o cinema e isso foi natural, nada premeditado. Mas sempre um cinema “não tradicional”, seja isso entendido como for.

Adoro o Galo. Sou fanático e, sem dúvida, isso é algo que me liga muito à cidade nestes anos que vivo fora. Leio diariamente sobre o Galo, vejo partidas e, quando posso, vou ao estádio. Já fechamos a avenida Paulista com um grupo de apenas quatro atleticanos fanáticos


Você é um diretor que sempre “se coloca” nos filmes, mas de uma maneira até ficcional. Bons exemplos disso são “33” e “FilmeFobia”, que estão no limite entre a ficção e o documental. São íntimos, mas também distantes de uma realidade. Como se dá esse processo?

Sim, eu me coloco em alguns filmes. O primeiro foi “33”, no qual eu busco minha mãe biológica com a ajuda de detetives. Naquele caso, minha presença era fundamental, porque no fundo o filme trata de um tabu, de um segredo em torno da adoção. Somos um país com, provavelmente, milhões de filhos adotivos e não falamos sobre isso. Eu poderia ter feito um filme entrevistando 20 filhos adotivos, mas achei que seria mais efetivo lidar com a minha própria história para lidar com um tema tabu. Conversei com Berta, minha mãe (adotiva, ou seja, minha mãe) e com meus parceiros Claudia Priscilla e Jurandir Muller. Encarei o filme “me colocando” nele, cada vez mais. 

E em “FilmeFobia”?

A experiência do “FilmeFobia” foi diferente. Depois de um longo processo, a partir de uma sugestão de Jean-Claude Bernardet, eu e o roteirista Hilton Lacerda decidimos trabalhar com atores, mas também com fóbicos reais. De alguma forma, quando tomei essa decisão, fui cobrado pela equipe do filme: já que tenho uma fobia, devia atuar. E assim foi. Desde a minha infância em BH sou fóbico de sangue. Na infância e adolescência sofri demais com isso, desmaiava com sangue ou em aulas na escola que falassem sobre aparelho circulatório ou primeiros socorros. Pude me vingar agora (risos). E, além disso, não faria ninguém desmaiar em cena, a não ser eu mesmo. Eticamente ninguém pode me cobrar nada, pois quem desmaiou fui eu. Além disso, meu papel era fácil, chegar lá, ser exposto a sangue e desmaiar. Mas nem sempre me coloco nos filmes. Só quando acho pertinente. Ator mesmo, eu fui em “Vestido de Laerte”, de Claudia Priscilla e Pedro Marques. Havia o papel de um militar que nega para Laerte (a cartunista) o uso de banheiro público e que seria interpretado por uma atriz reconhecida. Ela teve um imprevisto antes da filmagem, não poderia mais atuar e Claudia e Pedro se desesperaram. Eu disse: deixa comigo que eu faço. Atuei de batom, saia e bigode.

 

O documentarista Eduardo Coutinho é uma influência nítida em seu trabalho, mas hoje Jean-Claude Bernardet é um ponto de apoio importante, participando como personagem e da criação também.

Sobre Eduardo Coutinho eu poderia falar horas, mas o que mais eu admirava nele era o desejo de se reinventar de um filme para outro. Ele mudava os métodos de trabalho – que inclusive já eram respeitados – cada filme. Acho isso espantoso e genial. Jean-Claude é hoje em dia um amigo e um parceiro de trabalho. Sou muito feliz por partilhar minha vida com esse cara. Um gênio, um homem ousado. Sou muito grato e feliz quando vejo em casa ele brincando com meu filho Pedro Goifman ou em discussões entusiasmadas com Claudia, com quem sou casado e parceiro de trabalho. A estreia do filme “A Destruição de Bernardet”, de Claudia e Pedro, aconteceu em Locarno e depois em Brasília. Em Locarno dividimos um apartamento com Jean-Claude e foi uma delícia, com direito a brindes e brincadeiras. Muito afeto. Gostamos de trabalhar e viver juntos!

A questão da marginalidade, assim como a do gênero, é muito presente em seu trabalho. Esse interesse surge, possivelmente, de sua formação em antropologia?

O trabalho com violência surgiu ainda em BH, na graduação em Ciências Sociais na UFMG. Levei essa questão mais a fundo em Campinas, estudando o tempo na prisão. Como um filme nasce dentro do outro, acabei fazendo vários sobre violência, novamente com Jurandir Muller e Claudia e, o primeiro, “Tereza”, com Caco P. de Souza. De alguma forma posso dizer que trabalho com violência e temas que continuam sendo tabus. Prostitutas velhas que ainda trabalham, adoção, fobias. O meu interesse por gênero nasce dentro da minha casa. Claudia, que tanto menciono, desde seu primeiro filme aborda sexualidade. Desde uma ex-freira lésbica mexicana até “Olhe pra Mim de Novo”, longa sobre um transexual masculino que dirigimos juntos. Estamos em 2016 e achamos que temos que abordar temas que pouco interessam à televisão aberta, ou, quando interessam, namoram o sensacionalismo ou são pouco profundos.
 

Kiko Goifman


Outro ponto curioso em seus filmes é a morte, manifestada de forma real, principalmente nos primeiros trabalhos, e também abstrata, como a morte simbólica representada em “Periscópio” e “A Destruição de Bernardet”. De onde vem esse interesse?

A morte nos faz pensar em vários aspectos. Desde um terrível, que me incomoda muito, que é matar como forma de resolver um conflito. Porém, existe uma poética da morte, quando por exemplo Jean-Claude (personagem de “A Destruição de Bernardet”) defende o suicídio como forma de enfrentar a indústria da farmácia que nos quer empurrar remédios para prolongar nossas vidas como consumidores. Pensar a morte é pensar algo íntimo, mas essencialmente social também. Massacres, extermínios, guerras. Em “Periscópio” zombamos da morte, que se apresenta como falsa. Precisamos também disso: conviver com esse medo que temos de falar da morte.

Tenho um documentário de longa-metragem no qual retorno ao incrível universo dos detetives brasileiros para discutir homicídios não investigados. Quero filmar em Minas também


A cidade era mais presente, como crítica a uma sociedade hipócrita e lugar de grandes abismos, mas agora esses conflitos são cada vez mais internalizados e a cidade pouco aparece. O que mudou?

Não acho que o tema das cidades seja menor hoje. Faço séries com o Canal SECTV nas quais os tecidos internos e as estrias da cidade de São Paulo são esgarçados ao limite. Essa crítica à sociedade hipócrita não pode sumir. Às vezes sinto falta no Brasil de documentaristas militantes – até mesmo como Michael Moore, que não gosto, mas acho importante existir. A cidade é nosso palco de lutas e deve ser protagonista de nossos filmes. Em “33”, a cidade que filmo é uma Belo Horizonte escura e vazia. Que sugere uma solidão absurda. Tentar filmar uma cidade de forma realista me parece um exercício vazio que deixo para as câmeras de circuito fechado, que, com pretextos de defesa e controle de trânsito, vigiam cada ato que fazemos nas ruas. Provavelmente aqueles que nos observam durante 24 horas por dia são os mesmos que brincavam de tocar campainha em casa e correr ou namoravam calorosamente nos elevadores. Teriam coragem hoje?
 

Kiko Goifman


Como as recentes turbulências no mundo da política impactarão a cultura do país nos próximos anos?

Morro de medo. Minha posição política é clara: aconteceu um golpe no país e uma presidenta eleita foi retirada do poder. Em São Paulo ainda estou muito abalado com a derrota de Fernando Haddad, dos melhores prefeitos que vi. E não falo só sobre ciclovias ou redução da velocidade de automóveis. Falo sobre uma educação criativa proposta em escolas municipais que tive a oportunidade de visitar, na periferia das quatro regiões da cidade. O demônio para os conservadores agora é a Lei Rouanet. É curioso o entendimento da Cultura como um local de “boquinha” dos artistas.

Alguns contrapontos: a indústria automobilística é subsidiada. Se colocarmos R$ 100.000,00 na indústria dos carros e o mesmo valor na da cultura, de forma evidente vamos perceber que na cultura ele se dividiu por um número muito maior de pessoas. Outro: faço, desde o "33", coproduções internacionais nas quais parte do dinheiro deve ser gasto no Brasil. Trazemos para cá dinheiro declarado, pagamos impostos e somos o tempo todo fiscalizados. Ainda bem. Além, é claro, de representarmos o Brasil em festivais. Alguém é capaz de negar a importância de um país ser representado no cinema? Se sim, fácil lembrar da importância dada ao cinema pelos Estados Unidos no século XX, que apresentou ao mundo - com todos os seus produtos - o American Way of Life.

Infelizmente não tenho a menor ideia do que acontecerá com nossa cultura e arte nos próximos anos. Espero, ao menos, que não existam boicotes a artistas que questionam o governo que aí está no país.

 

Apesar de longe de BH, você é um atleticano doente. Já imaginou fazer um filme sobre o clube? Como seria?

Adoro o Galo. Sou fanático e, sem dúvida, isso é algo que me liga muito à cidade nestes muitos anos que vivo fora. Leio diariamente sobre o Galo. Vejo partidas, quando posso vou ao estádio. Quando estou em BH vou ao campo com minha família e também com amigos cineastas como Helvécio Marins. Aqui em São Paulo vejo jogos pela TV na minha casa com atleticanos amigos do mundo da arte, como Marcos Boffa e Rodrigo Siqueira. Já fechamos a Avenida Paulista (moro bem perto) em um grupo de apenas quatro Atleticanos fanáticos.

Algo como 11 anos atrás existiu um projeto - gigante e que não foi pra frente - em que diretores seriam chamados para dirigir filmes do time do coração. Em BH eu dirigiria o filme sobre o Galo e o meu irmão - de puro afeto e admiração - Cao Guimarães dirigiria um sobre o Cruzeiro. O argumento de meu filme era simples. Na época meu filho Pedro tinha 2 anos e eu mostraria coisas mágicas e lindas do nosso Galo para convencê-lo (de brincadeira) a ser Atleticano. Dario ensinaria Pedro a parar no ar; nossa torcida mágica cantaria músicas de Beth Carvalho, Reinaldo mostraria seus punhos fechados de luta, muitas camisas do Galo lutariam em varais contra o vento. Disso tudo o que restou é que - o projeto não vingou - Pedro hoje é um corinthiano pouco fanático e que canta "O Segundo Sol", de Cåssia Eller, enquanto eu choro nos domingos de jogo do Galo.

Faria um filme sobre qualquer coisa sobre o Galo se fosse convidado. Estou totalmente à disposição. Paro tudo já. E aos atleticanos aviso que estou aqui em São Paulo secando cada jogo do Palmeiras, pois "Eu Acredito" que seremos campeões brasileiros em 2016.

Quais são os seus próximos projetos?

Tenho 1897564 projetos (risos). Não paramos um segundo na nossa área (depois dizem que não trabalhamos). Adoraria continuar fazendo a Coordenação Geral do programa "Transando com Laerte", que atualmente está em segunda temporada no Canal Brasil. Tenho um documentário de longa-metragem no qual retorno ao incrível universo dos detetives brasileiros, agora para discutir homicídios não investigados. Retomarei, também em outro longa com a direção conjunta com Claudia Priscilla, a temática da transexualidade. Quero ainda fazer mais um filme de ficção em parceria com Jean-Claude Bernardet. Tenho um projeto de desenvolver um núcleo criativo com roteiristas em São Paulo. Quero filmar em Minas também, em um projeto que ainda está nascendo. Estou no início do desenvolvimento de um projeto de série de ficção para TV. Ou seja, não quero ficar parado ainda que em um cenário de crise política e econômica.