Livros baratos, de formato pequeno e poucas páginas, com cunho mais didático e cujos títulos sempre começaram com a pergunta “O que é?”, relacionados a diversas áreas de conhecimento. Características marcantes de uma coleção emblemática: a “Primeiros Passos”, da Editora Brasiliense, lançada em 1970 e que publicou mais de 300 livros em três décadas. Tal perfil retorna agora por um prisma mais democrático e atento às questões atuais.
 
Publisher da editora mineira Letramento, Gustavo Abreu não esconde a fonte de inspiração da coleção “Feminismos Plurais”, mas ressalta o caráter único dos livros que serão lançados: todos eles buscarão dar voz a grupos que sempre foram relegados a coadjuvantes dentro da História. “Nosso objetivo é reconhecer a importância da multiplicidade de vozes, tendo como pilares principais a mulher e o homem negro e o indígena”.
 
A coordenadora da proposta é a mestre em Filosofia Política Djamila Ribeiro, que abriu a coleção com “O que é Lugar de Fala?”, lançado em janeiro. “Essa coleção é a realização de um sonho meu, de algo que fosse didático e que tivesse mulheres negras como autoras, já que vivemos num país em que pouquíssimas negras conseguem publicar, apesar de terem trabalhos de qualidade”, registra.
 
Nome de referência sobre o feminismo negro no Brasil, com forte atuação na internet, a coordenadora ressalta que seu maior interesse é fazer com que os temas saiam da “bolha” acadêmica e alcancem mais pessoas. “Justamente por isso optamos por livros de linguagem didática e de preço acessível. Assim democratizamos o máximo possível esse tipo de conhecimento”.
 
Em “Feminismos Plurais”, ganham protagonismo sujeitos que, historicamente, foram apagados ou tiveram negados o seu direito à fala. O mais recente lançamento é dedicado ao encarceramento em massa, escrito por Juliana Borges, acadêmica na área de Antropologia e colunista do “Justificando”, portal jurídico que também é parceiro da coleção. No próximo mês, será a vez de “O que é Empoderamento?”, de Joice Berth.
 
Projeto de sociedade
Entre os futuros temas estão racismo estrutural, interseccionalidade, colorismo, transfeminismo, feminismo cristão, intolerância religiosa, mulheres quilombolas e mulheres amazônicas. “A gente tem a ideia de que feminismo é só falar sobre gênero, mas é também abordar projetos de sociedade de todas essas categorias que circundam o tema. É pensar a sociedade de fato”, explica Djamila.
 
Para a Letramento, a coleção representa um passo muito importante na história da editora, criada há apenas cinco anos. “Não digo que é uma mudança de chave, mas esse lado de cunho social traz uma repercussão nacional e internacional muito grande”, comemora Abreu. Em breve, a editora lançará o selo Sueli Carneiro (nome da filósofa e ativista negra), voltado para pensadores negros, do Brasil e do exterior.