Na capa vem escrito, bem destacado, revista, logo abaixo do título “Serrote”, apresentando-se como uma reunião de ensaios, artes visuais, ideias e literatura. A publicação, porém, está mais para um livro, pelo formato, número de páginas e acabamento. “Está no meio do caminho”, diverte-se o editor Paulo Roberto Pires, ressaltando que a “Serrote” segue uma tendência de revistas literárias para se colecionar.

Produzida pelo Instituto Moreira Salles, a revista-livro acaba de chegar às bancas e livrarias – mais uma prova do caráter duplo – com seu número 25. O que faz dela uma revista talvez seja a forma rápida como dialoga com o presente, por meio de ensaios que tematizam questões ainda “quentes” na grande mídia, como a ascendência da direita no mundo e o tenso momento político brasileiro atual.

“Procuramos incluir alguma coisa que está acontecendo no momento. Não um texto que logo ficasse desatualizado, mas algo que conversasse com o momento. Estamos sempre ligados”, explica Paulo Roberto. Já no texto de abertura, “A Sociedade como Campo de Batalha”, Guilherme Freitas analisa as guerras culturais no país, em que se coloca em questão conceitos como família, educação e direitos.

Um dos destaques da edição é o texto “Elizabeth & Alice”, extraído da biografia “Elizabeth Bishop: A Miracle for Breakfast”, lançado em fevereiro nos Estados Unidos e ainda inédito em território brasileiro. A poetisa viveu no Brasil, no Rio de Janeiro e em Ouro Preto, tendo se relacionado com a arquiteta Lota de Macedo Soares, nos anos 1950 e 60. Mas o país é pouco citado nesse livro, retratando uma fase posterior à relação de Elizabeth e Lota.

“É sobre a poetisa e a sua última namorada, Alice Methfessel”, sublinha o editor da “Serrote”. O livro foi baseado na recém-descoberta correspondência trocada entre as duas. Alice, por sinal, teria inspirado um dos poemas mais famosos de Elizabeth, “Uma Arte”. Paulo Roberto observa que está sempre atento ao mercado literário no exterior, de forma a trazer trechos ou capítulos em primeira mão.

Lugar da poesia
Entre os autores da “Serrote”, estão nomes brasileiros e estrangeiros. Um dos mais aclamados escritores americanos da nova geração Ben Lerner – do romance “Estação Atocha” – tem transcrito, na íntegra, o seu texto “O Ódio pela Poesia”, em que investiga a aversão despertada pela poesia em parte do público e da crítica e apresenta uma defesa original da arte poética. O ensaio é ilustrado por pinturas de Paulo Pasta.