Além de ser um raro filme a ter uma mulher como protagonista de uma história sobre o cangaço (e foram feitos vários), “Entre Irmãs” recorre ao subgênero, que podemos definir como o western brasileiro, para falar do país de hoje.
 
A junção destes dois ingredientes não é fortuita: por tudo o que a trama nos apresenta como simbólico de uma transformação, o caminho do crescimento passa primeiramente pelas mulheres que venceram a opressão machista. 
 
Desde os seus primeiros movimentos, o longa de Breno Silveira parece nos oferecer duas alternativas: a garota (Marjorie Estiano) que espera o príncipe encantado para sair de sua rotina e a irmã destemida e sem excesso de feminilidade (Nanda Costa).
 
A opção se faz entre crescer e viver à mercê de um homem ou preservar sua individualidade e não sair da condição de marginal. Esse ponto de partida é reforçado constantemente no roteiro, alternando pontos de vista sobre o que seria a melhor escolha.
 
A personagem de Marjorie, Emília, se casa com rapaz rico e vai para a cidade grande, a Recife dos anos 30, mas se torna cativa da rotina de um lugar patriarcalista, machista e eugenista. A cena em que ela observa um feto deformado num vidro seria um espelhamento de sua condição.
 
A arredia Luzia (Nanda) vira cangaceira, conquistando na marra seu espaço e sendo marcada para sempre, aos olhos da sociedade, como criminosa. Lados aparentemente opostos que se entrelaçam ao final, na fusão de uma mulher vencedora.
 
“Entre Irmãs” se vale de um artifício interessante para estabelecer esse vínculo, após as duas seguirem caminhos diferentes (zona urbana e caatinga), ao marcar a trajetória delas por pontos comuns, como coincidências do destino.
 
Uma das cenas mais importantes para a ideia de complementaridade, é quando cada irmã vê a outra numa foto de jornal, em momentos distintos, reconhecendo a luta que travaram para chegar ao lugar que conquistaram.
 
Silveira oferece um trabalho regido pelo feminino. É muito significativo que a sogra de Emília, tão arredia às mudanças, aceite a relação do filho posteriormente, ajudando na construção da imagem da mulher como sinal de evolução.
 
E os homens que não se tornam a antítese das personagens femininas também têm na mulher um guia, como é o caso do cangaceiro Carcará (ótima atuação de Júlio Machado), que forma o bando após sua mãe ser morta por coronéis.
 
Mas, de uma forma geral, o progresso representado pelos homens apenas repete o passado no uso da violência e de valores morais antigos, não só no que diz respeito ao papel da mulher como também às discussões que hoje ainda são motivo de luta de setores da sociedade.