Leo Cunha já publicou mais de 50 livros infantojuvenis. É um dos grandes nomes do setor em Minas Gerais e no Brasil, tendo recebido prêmios importantes como o Jabuti, o João-de-Barro, o Nestlé, o FNLIJ, o da Biblioteca Nacional, entre outros. Vários deles foram selecionados para adoção em escolas do país.
 
Não há uma fórmula que possa explicar o sucesso deste escritor mineiro nascido em Bocaiúva há 52 anos, 50 deles passados em Belo Horizonte, mas é possível, a partir desta entrevista ao Hoje em Dia perceber algumas escolhas que foram determinantes para essa trajetória, como a convivência desde cedo com o universo da literatura.
 
O fato de trabalhar com ilustradores e editoras diversas também lhe possibilitou infinitas maneiras de desenvolver a sua obra e fazê-la chegar tanto nas grandes livrarias como nas bibliotecas das escolas. Além de não se permitir dar lições de moral, uma tentação em vários escritores do gênero. “Não é o papel da arte doutrinar ninguém. Quando leio algo com uma mensagem me sinto meio manipulado”, observa Cunha.
 
O autor mineiro prepara o lançamento de dois livros em 2018: “Só de Brincadeira”, da editora Positivo, com ilustração de Anna Cunha, e “Sinais Trocados”, com desenhos de Gustavo Piqueira, que será publicado pela Biruta
 
 
Ele viaja nos próximos dias para a Itália, onde participará da Feira do Livro de Bolonha, um dos principais dedicados à literatura infantojuvenil. “Estou indo mais como curioso, apesar de participar de uma mesa lá. Também é a possibilidade de falar com algumas editoras internacionais, sem a ilusão de que fecharei grandes negócios. Tenho consciência que meu texto é mais poético, trabalhando a linguagem com jogo de palavras, aliterações e rimas. Isso dificulta a tradução, mas é uma característica do meu trabalho”, analisa.
 
Você já escreveu mais de 50 livros infantis e infantojuvenis. De onde vem tanta imaginação para este universo?
De várias coisas. Uma delas é ter crescido, nos anos 70 e 80, rodeado de pessoas desta área, como escritores, ilustradores e professores, desde o momento em que minha mãe, Maria Antonieta Cunha, criou uma livraria, a Miguilim, que mais tarde virou editora, uma das primeiras do país a se dedicar exclusivamente à literatura infantojuvenil. Além desse lado pessoal muito forte, tem o fato de ter sido um leitor muito voraz. Não adiantaria nada estar à volta com o pessoal se eu não gostasse de ler. 
 
Diferentemente do cinema, em que até há pouco tempo a opção era pelo produto estrangeiro, no Brasil o público mirim tem maior afinidade com as narrativas nacionais.
Literatura é uma arte da palavra. Quando o texto é em sua língua, o contato é facilitado, embora tenha traduções muito interessantes. Desde os anos 70, existe uma produção de alta qualidade. Antes disso, era um pouco limitado, com Monteiro Lobato nos anos 30, e iniciativas isoladas de escritores como Cecília Meireles e Mário Quintana. Nos anos 70 e 80, o número de obras e autores cresceu exponencialmente. Hoje em dia, a Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil, de que eu faço parte há 15 anos, conta com 400 membros. Também temos uma grande quantidade de editoras, por volta de 100, que publicam livros para crianças e adolescentes.
 
No caso da literatura infantil, o ilustrador é uma espécie de coautor, com os desenhos tendo a mesma importância do texto. Você já trabalhou com vários ilustradores. Como se dá essa escolha?
Quanto mais jovem o público alvo, mais fundamental se torna a imagem. Na transição do infantil para o juvenil, o peso se torna relativo, com a narrativa ficando essencialmente verbal. Um das maiores felicidades de minha carreira é ter trabalhado com praticamente todos os principais ilustradores do país. Só não consegui produzir com a Angela Lago (falecida em outubro do ano passado), apesar de sermos amigos. Mas trabalhei com Roger Mello, um dos mais premiados, Rui de Oliveira, grande mestre que formou uma legião de ilustradores... Creio que tenha sido mais de 30. Alguns se repetem, outros não. Tudo vai depender do projeto. Se ele nasce com o texto e uma ideia de imagem, os dois são apresentados juntos à editora. Em outros casos, eu mando o texto e a editora escolhe o ilustrador com o estilo mais adequado. A gente percebe claramente o estilo de cada um, que pode ser poético, engraçado, realista, surrealista, mais detalhista ou econômico. 
 
Leo Cunha também é professor do curso de Comunicação Social, sendo o mais antigo no país a ministrar a disciplina de Jornalismo Cultural (desde 1999)
 
Minas Gerais se tornou um grande celeiro de autores e ilustradores do gênero. Existe uma razão para isso ter acontecido?
Algumas editoras se tornaram celeiros bem fortes de ilustradores, havia espaço para isso. A Miguilim, por exemplo, em que minha mãe era uma das sócias, lançou a Marilda Castanha, a Adriana Leão, o Paulo Bernardo, a Ana Raquel. A Formato e a Lê também abriram espaço para os ilustradores. A qualidade é muito grande, não sei se motivada pela ligação com escolas como a Belas Artes. Alguns deles passaram das artes plásticas para a ilustração, que são duas coisas bem diferentes. Pintar um quadro é uma coisa, ilustrar para um texto é outra, levando a um diálogo com outra arte.
 
Os autores geralmente usam muitos elementos autobiográficos em suas obras. Qual livro mais lhe retratou?
Tem livros em que aproveitei passagens de minha infância e adolescência, além de cenas com meus filhos. “Dedé e os Tubarões”, por exemplo, é baseado num caso do meu filho com o tablet. “Castelos, Princesas e Babás” foi inspirado num acontecimento ocorrido com minha filha na hora de dormir. Pego muito isso. “As Pilhas Fracas do Tempo” tem um personagem bem inspirado na minha adolescência, com a coisa da geração shopping center, da turma, do momento da descoberta da primeira paixão. Não que o personagem fosse eu. Ele tem muita coisa minha, mas sempre gosto de misturar, juntando à característica de um amigo. 
 
A Sylvia Orthof (referência nacional da literatura infantil, falecida em 1997) teve um papel fundamental na sua carreira, não é verdade?
Ela veio várias vezes a Belo Horizonte, para lançar livros em escolas e eventos, e nos tornamos muito amigos. Gostava muito do estilo dela, que era divertido, poético mesmo quando fazia prosa, muito nonsense. São elementos que trabalho muito em meus livros. Natural que eu me espelhasse nela. Ela entra como personagem no meu livro “Joselito e seu Esporte Favorito”. O título, por sinal, espelha os livros da Sylvia, juntando o nome de uma pessoa a uma característica que rimava. Lembro de “Tia Januária é Veterinária” e “No Fundo do Fundo Fundo, Lá Vai o Tatu Raimundo”.
 
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Suas histórias não buscam levar a uma moral ou mensagem. Por que?
Sou meio avesso a isso. Os livros que mais gosto de ler não enfiam pela goela do leitor uma lição de vida. Quando leio algo com uma mensagem me sinto meio manipulado. Mesmo em filmes. Não é o papel da arte doutrinar ninguém. O mais importante é construir uma boa história, encantar, divertir, assustar, mexer com as emoções do leitor, mas não no sentido de ensinar nada.
 
Observando a sua bibliografia, são poucas as editoras que se repetem. Você acha melhor trabalhar com editoras diferentes?
No campo da literatura adulta, o autor escreve um livro a cada dois anos, o que permite que se publique pela mesma editora outras vezes. No caso da literatura infantil já é diferente. Eu escrevo uma média de dois a três livros por ano, esbarrando na capacidade de produção das editoras. As pequenas publicam quatro, cinco por ano. As grandes quatro, cinco por mês. O legal de ter livros em várias editoras é a possibilidade de eles circularem por lugares diferentes. Uma editora grande tem divulgação nacional e a certeza de que a sua obra chegará às livrarias. Uma pequena terá um trabalho mais cuidadoso com gráfica, papel, tratando-a como um filhotinho. Outras vão focar nas escolas.
 
Ele traduziu mais de 30 obras para o inglês e o espanhol: “Você aprende a ver como o texto foi construído e o seu ritmo”
 
 
Você fez parte da criação da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil. O que pode ser feito para melhorar o mercado para esse gênero no país?
A possibilidade de a editora trabalhar com livros mais literários e menos didáticos. No caso das escolas, formar um acervo de livros ricos, menos como um penduricalho para a questão didática. Dentro da família, frequentar bibliotecas e deixar a criança livre para fuçar e escolher. O folhear faz parte, ajuda na escolha. O poder público deve reativar os programas de criação de acervo. E tem a mídia, que poderia abrir maior espaço. Essa entrevista é uma exceção à regra. Antigamente, nos jornais, havia cadernos infantis e páginas com dicas de livros.