No ano do cinquentenário da morte de Guimarães Rosa (1908-1967), Belo Horizonte recebe “O Crivo”, espetáculo de dança que converteu em movimentos o livro “Primeiras Estórias”, publicado em 1962 pelo autor mineiro. Marcando a estreia na direção do coreógrafo João Paulo Gross – também em cena –, a peça tem sessões sexta e sábado no Galpão Cine Horto.

No palco, dois bailarinos falam sobre a relação com o outro baseada no diálogo estabelecido por personagens em três dos 21 contos do livro. De cada texto, uma imagem foi retirada para poder construir essa conversa. 

“Em ‘A Terceira Margem do Rio’, o rio foi escolhido porque fala sobre um lugar de passagem, como é a nossa vida. Em ‘O Espelho’, o espelho diz sobre como me relaciono e vejo a partir do olhar do outro. E em ‘Nada e a Nossa Condição’ partimos do espaço entre ‘nada’ e ‘nossa condição’ para falar sobre o espaço existente na relação dos dois em cena”, explica o diretor. 

Espaço, aliás, é uma das tônicas da peça, mas não aquele entendido como um vazio e sim algo que permite encontrar, perceber o todo.

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“Apesar de ter outros significados na língua portuguesa, o ‘crivo’ apontado no nome do espetáculo é um ponto de bordado. E eu só consigo ver o bordado porque há espaços nele”, esclarece o diretor. 

A coreografia trabalha bastante os “espaços internos” dos bailarinos, ressalta o diretor.

“Guimarães disse uma vez que o ‘Grande Sertão: Veredas’ não fala muito do geográfico; é sobre um sertão íntimo, sozinho, de cada um... No palco, a proposta é encontrar dois sertões que entram em conflito e também em diálogo, pois vão se entender. Nesse lugar, eles se conhecem, se entendem corporalmente e sensorialmente e isso vai construindo e tecendo histórias”. 

Gross, porém, faz questão de esconder a substância que dará liga à narrativa.

“Tem um elemento que dará textura nessa relação, no jeito de olhar, e causará certa aridez no espaço. Ele vai criar quase um sertão de verdade, no meio dessa secura toda”.

Serviço: “O Crivo”, nesta sexta e sábado, às 20h, no Galpão Cine Horto (rua Pitangui, 3613, Horto). Entrada franca, com retirada de ingressos na bilheteria ou no sympla.com.br.