A longa espera por recursos, comum no cenário cultural brasileiro, fez bem ao espetáculo “Xabisa”, cartaz de hoje no Teatro Marília, com entrada franca. Aprovado pela Lei Municipal de Cultura em 2014, o dinheiro só saiu agora, quando a idealizadora do projeto, Michelle Sá, já tinha “mudado”, como ela mesmo frisa.
 
O que era para ser apenas uma peça sobre palhaços acabou refletindo o processo atual vivido pela diretora, roteirista e atriz, voltado para as questões étnicas, raciais e de gênero. “Pensei: vou tentar mesclar todas as questões que me inquietam com a linguagem do palhaço”, registra.
 
Em “Xabisa”, palavra de origem bantu que significa “valorize” em português, o humor dos jogos de palhaço, parte do início da carreira cênica de Michelle, se encontra com os elementos ancestrais da cultura afro-brasileira, como a capoeira e o candomblé. “Falamos da África a partir de um contexto nosso”.
 
Integrante do coletivo As Bacurinhas e coordenadora do projeto “Segunda Preta”, de valorização do artista negro, Michelle destaca o trabalho de pesquisa vocal e corporal. “Fazemos referência a uma linguagem da África do Sul (xhosa) para criar algo nosso, aproveitando-se da sonoridade dela, que é mais explosiva”, observa.
 
Após a sessão de hoje, às 20h, no Teatro Marília (Av. Prof. Alfredo Balena, 586–Centro), o espetáculo percorrerá espaços da periferia
 
Outro pilar importante foi a dança Gumboot, também originária da África do Sul. Nascida no final do século XIX, era usada como forma de comunicação entre escravos das minas dominadas pelos britânicos, valendo-se da movimentação do corpo, dos gritos, das palmas e do som das botas de borracha.
 
“Criamos uma dramaturgia em que meu personagem e o do Alexandre de Sena (únicos atores em cena) entram numa mina em busca de uma preciosidade, a princípio um bem material. Esta mina tanto pode ser a da África como as de Minas Gerais, que também usavam mão-de-obra escrava”, assinala.
 
“Xabisa” é uma comédia, mas não espere um riso rasgado. A palhaçaria é adotada com “sutileza, chegando a todo mundo. Muitos trabalhos constroem o riso a partir de uma experiência preconceituosa, como a mulher gorda e o negro fedido. Nós buscamos sair disso”.