Um engraxate que narra em primeira pessoa uma parte significativa da história da soul music em Belo Horizonte, onde, além da música, coloca-se em cena questões como racismo e exclusão social. É esse o argumento central do ator Fabiano Persi na peça “Sapato Bicolor”, que tem apresentação única e gratuita, nesta quinta-feira, no Memorial Minas Gerais Vale.

Como um contador de histórias, o personagem leva aos palcos o universo das pessoas que frequentam o tradicional Baile da Saudade, evento que há décadas celebra a soul music na capital mineira. Mas, para além das questões culturais, a montagem traz à tona reflexões sobre uma sociedade excludente e faz uma reverência aos indivíduos que encontram a dignidade, muitas vezes negada a eles, através da dança e da música que agitam o evento.

“O desejo de levar esse ambiente e suas histórias aos palcos surgiu desde o primeiro contato com o Baile, há cerca de nove anos”, lembra Persi. Segundo o que a identificação com o local foi imediata, principalmente por representar de forma tão próxima algo que esteve presente em sua adolescência. 

A teatralidade e a alegria da atmosfera dos bailes deram contribuições para o desejo do ator. “Eu tinha uma pulguinha atrás da orelha. Eu sabia que de certa forma eu tinha que usar meu trabalho como ator para falar sobre este lugar, que é muito particular”, recorda. “Algo me provocava também a contar a história dessas pessoas. São indivíduos com a idade mais avançada, que talvez não estarão mais ali daqui a alguns anos. Pode ser uma cultura que está com os dias contados”, avalia temeroso. 

Mas além do desejo de valorizar a importância desse ambiente que é tão singular – afinal, rememora a soul music em sua essência, inclusive, com frequentadores trajados de forma característica dos anos 70 e 80 – o ator também busca evidenciar o papel social desempenhado pelo Baile da Saudade. “Ele é um espaço extremamente convidativo e coletivo. Sem hierarquia. É horizontal. Lá, ninguém é diferente de ninguém”, aponta.

Sapato Bicolor

TRANSIÇÃO – Muitas vezes invisível aos olhos da sociedade, o engraxate, personagem principal da peça, ganha o protagonismo através da dança e presença no Baile da Saudade

O Baile da Saudade, inspiração para a peça, é um dos centros de resistência da cultura negra em Belo Horizonte. Há 33 anos ininterruptos, a festa, que durante anos ocupou uma danceteria em Venda Nova, hoje tem caráter itinerante e realiza edições em vários espaços

Esse papel social é sublinhado pela própria história do engraxate. Com uma trajetória que se mistura às lembranças colhidas no baile, o personagem evidencia sua transição entre o lugar invisível – relegado a ele por seu cotidiano e seu trabalho – para um lugar de protagonismo. “Ele, que é uma pessoa que vive à margem da sociedade, vira o centro das atenções com a dança. Ele é o rei, é quem domina as pistas e isso o revigora”, explica Persi.

Serviço: Peça “Sapato Bicolor”. Na quinta-feira, Às 19h30, no Memorial Minas Gerais Vale (Praça da Liberdade–Lourdes). Entrada gratuita.