Se engana quem pensa que o mineiro Álvaro Apocalypse (1937-2003) foi, apenas, a mente brilhante por trás da criação do Grupo Giramundo. Natural de Ouro Fino, foi um sujeito múltiplo, que deixou um vasto legado nas artes visuais, desdobrando por diferentes suportes e técnicas. Além de ter criado centenas de bonecos – bem como seus complexos sistemas de manipulação – foi pintor, ilustrador, gravador, desenhista, diretor de teatro, cenógrafo, professor, museólogo e publicitário. Para celebrar a riqueza e a pluralidade de sua obra e comemorar os quatro anos do Cine Theatro Brasil Vallourec, o espaço recebe a exposição “O Baú de Álvaro Apocalypse”, que abre nesta terça-feira (3) e vai até o dia 5 de novembro. 

Inédita e gratuita, a mostra conta com 100 obras e aproximadamente 25 bonecos do Grupo Giramundo, que guiarão o público pelas diversas etapas da carreira de Álvaro Apocalypse. “É uma exposição composta apenas pelo acervo da família, não tem nenhuma obra de colecionador. As obras escolhidas vão desde 1950, quando ele começou, até o ano 2000, quando teve seu último quadro exposto”, explica Paulo Apocalypse, neto de Álvaro, que assina a curadoria ao lado de Adriana, filha do artista. 

Paulo conta que a exposição reúne, cronologicamente, todas as técnicas usadas por Álvaro Apocalypse, como tinta a óleo, gravura em metal, xilogravura e nanquim. “Também descobrimos sete obras em tecido. Junto às anotações do diário, é possível perceber a mudança de comportamento dele a partir dos anos 60, quando começou a usar o tecido. Ali, passou a aceitar melhor o erro, saindo da busca pela perfeição estética”, afirma. “As pinacotecas são um baú sem fundo. Alguns quadros tiveram que ser emoldurados de novo, por conta do tempo. Quando tiramos a estrutura, descobrimos estudos inéditos atrás das obras”, conta. 

Bonecos

Para o neto de Álvaro Apocalypse, os bonecos são um capítulo à parte. “Queríamos mostrá-lo como o artista completo que foi. Mas é impossível falar de Álvaro sem falar de Giramundo. Na década de 70, ele ainda produzia muitos quadros, mas depois, nos anos 80, quando o Giramundo tomou uma proporção maior , ele passou a se dedicar mais aos bonecos”, pontua. “Álvaro deixou um acervo gigantesco. Só no acervo do Museu Giramundo são na faixa de 600 bonecos”, completa.

Sobre a escolha dos bonecos para a exposição, Paulo afirma que o critério foi afetivo. "Selecionamos os bonecos dos orixás, que Álvaro gostava muito. Têm três de ‘Cobra Norato’, de 1979, que foi o maior e mais premiado espetáculo do Giramundo. E têm também outros, como dois que ele gostava muito e que foram apenas estudos, nunca apresentados. Mas tornaram-se mascotes em sua mesa de trabalho”, conclui. “Eu e Adriana já fomos do Giramundo. Então, buscamos bonecos que têm relação com a família. Que nós já manipulamos ou que guardam lembranças”, conclui. 

Serviço: “O Baú de Álvaro Apocalypse”. Desta terça-feira (3) a dia 5 de novembro, no Cine Theatro Brasil Vallourec (av. Amazonas, 315, Centro). Visitação gratuita, de terça a domingo, das 11h às 19h.