Para ganhar o selo de independente, os filmes americanos lançados a partir dos anos 90 não podiam abrir mão de uma família disfuncional, origem de tantos personagens estranhos e solitários que giravam em sua órbita – opção que ajudou a enterrar de vez os chamados “filmes de família”.

Uma das principais estreias de hoje nos cinemas, “Extraordinário” tenta recuperar o prestígio (e a função, por que não?) deste segmento, lembrado por obras edificantes como “A Felicidade não se Compra”, de Frank Capra, “O Sol é para Todos”, de Robert Mulligan, e “A Noviça Rebelde”, de Robert Wise.

Com Julia Roberts e Owen Wilson nos papéis de pais exemplares que lutam para manter a unidade da família, “Extraordinário” é muito fiel à esta cartilha, a começar pelo inimigo a ser enfrentado: o sistema. Não o financeiro (caso de “A Felicidade Não se Compra”) ou o político (“A Noviça Rebelde”), mas o social.

Trunfos
O combate é contra a reprodução de certos modelos que fazem do pequeno Auggie uma aberração na escola: o garoto tem o rosto deformado e, até 10 anos, viveu sob uma redoma criada por seus pais – o maior exemplo disso é o uso de um capacete de astronauta quando ele se aventura fora de sua zona de conforto.

O filme de Stephen Chbosky registra essa experiência, bastante ilustrativa de casos de bullying. Mas o seu trunfo vai muito além do contato com esta perversidade, se podemos dizer assim. Até porque essa contraposição é suavizada pelo bom humor e inteligência de Auggie e pela crença do filme no ser humano.

Todos os personagens principais e secundários são redimíveis. Outra característica das obras deste gênero é o seu caráter cristão, oferecendo a outra face para baterem. No caso do pequeno protagonista, interpretado pelo fofo Jacob Tremblay, há um rosto inteiro como alvo de gozações constantes.

Só resta chorar
A redenção (dos outros) se efetiva a partir de uma estratégia bem feita pela narrativa, dividindo-a em vários pontos de vista – desde o único coleguinha que defende Auggie na escola à ex-melhor amiga da irmã Via. Todos, sem exceção, percorrem um caminho errôneo em algum momento e têm a chance de voltar atrás.

Autor do livro “As Vantagens de Ser Invisível”, Chbosky consegue dar peso aos demais sem tirar Auggie do foco. O problema de inclusão deste ganha paralelo com o de Via, que virou adulta muito rápido para não sobrecarregar os pais, mas sente falta da atenção deles e convive também com seus problemas de adaptação.

Assim, se não é possível se identificar com as agruras de Auggie, ao espectador – jovem ou adulto – não restará muita opção do que chorar e chorar, seja pela persistência dos pais (Wilson faz o boa praça de sempre e Julia o tipo mãe que abandona a carreira pelos filhos) ou pela simples constatação de que o mundo ainda pode ser bom.