Na última semana a filósofa e escritora Márcia Tiburi dominou os holofotes e foi tema de acaloradas discussões nas redes sociais por se negar a debater com o líder do Movimento Brasil Livre (MBL), Kim Kataguiri, em um programa de rádio. Momentos antes do episódio, ela conversou, por telefone, com a reportagem do Hoje em Dia sobre seu novo livro, que tem como proposta a construção de um feminismo a partir, justamente, do diálogo.

Mas, para ela, esta troca exige um caráter crítico e longe de preconceitos; diferente do discurso do debatedor que ela buscou evitar e assim, não legitimá-lo, como ressaltou diante da repercussão do episódio, em carta aberta publicada na Revista Cult.

Sua mais nova obra, “Feminismo em Comum: para todas, todes e todos”, que marca o retorno do selo feminista Rosa dos Ventos (criado por Rose Marie Muraro e Ruth Escobar , se propõe a levar a discussão para além da bolha, alcançando um público diverso. “É um livro para as mulheres, famílias, para os homens, para as pessoas trans”, reforça. “Digo no título que é uma obra feito para todas, todes e todos, porque acredito que o feminismo precisa ser feito em conjunto e isso implica todos os sujeitos da sociedade. Não podemos fazer um feminismo para a bolha. O debate precisa se aprofundar, mas também se ampliar e trazer outros sujeitos”, sublinha. “Não apresento um feminismo como ideologia pura contra o machismo. A ideia é pensar nele como desconstrução, crítica, como uma metodologia de análise da sociedade”, acrescenta.

Com o objetivo de produzir uma obra curta e mais acessível, a autora se aproximou também de temas que considera mais palpáveis e questões que, mesmo evidentes, possam passar despercebidas. “Insisti muito na questão da desigualdade doméstica. As mulheres estão trabalhando dentro e fora de casa, para os homens, para a família”, exemplifica. “Quis pensar a luta feminista como uma busca por igualdade de direitos, mas que vise uma vida mais justa e melhor para todas as pessoas”, afirma.

Assim, a obra de Tiburi reforça o desejo de diálogo também dentro do movimento. “Ao invés de produzir disputa, porque as pessoas caem na armadilha de achar que um feminismo é melhor que o outro, eu proponho um feminismo dialógico, que seria a composição de um cenário no qual várias formas de feminismo se fazem presentes”, pontua.

Para construir essa a proposta, a filósofa lançou mão de seus estudos, pesquisas e também de sua própria vivência. “De um lado tento falar dos feminismos que existem e construir um ponto de vista que torne esse mundo mais compreensível e acessível, porque existe muito preconceito ao termo e às pessoas que se declaram feministas. Quis discutir criticamente essa visão deturpada e melhorá-la”, afirma.