Marília Rocha está numa ilha de Portugal, cumprindo “apenas um curto intervalo entre um grande trabalho e outro”. Enquanto espera a exibição de “A cidade onde envelheço” no Festival de Cinema de Brasília, no próximo mês, a cineasta – goiana de nascimento e mineira de coração –prepara uma série documental sobre escritores famosos que migraram para o Rio de Janeiro na primeira metade do século passado.

O tema não é novo para a realizadora de 38 anos que já retratou outros nômades em sua filmografia, especialmente portugueses que escolheram BH para morar. Essa é a sinopse de “A cidade onde envelheço”, estreia de Marília na ficção. “Passei a infância me mudando de uma cidade para outra até me fixar em Belo Horizonte. Talvez por isso essas pessoas nômades, sempre em busca de um lugar para si, me interessem particularmente, assim como o processo de se estabelecer e se encontrar em cada lugar”, justifica.

Nessa entrevista ao Hoje em Dia, ela explica o interesse por Portugal, fala da saída do grupo Teia, uma das mais importantes produtoras de cinema de Minas, e revela o amor por Belo Horizonte, onde está há 20 anos produzindo filmes premiados como “Aboio” (2005) e “A Falta que me Faz” (2009).

Como você analisa essa forte presença de filmes mineiros no Festival de Brasília, que acontecerá no próximo mês?

Ter tantos filmes e com propostas tão diversas entre si, numa seleção restrita como a de Brasília, mostra a força e a diversidade da produção que está sendo realizada atualmente em Minas. Especialmente neste ano de renovação do festival, em que a tradição foi aliada a uma programação que deseja olhar para frente e apontar o que há de mais pungente na produção brasileira atual. 

Você concorre com um filme que faz a relação entre Brasil e Portugal, mais propriamente Minas e Portugal. Você já tinha feito essa ponte com “Acácio”, apostando na interação dessas culturas.

A relação entre Brasil e Portugal faz aflorar sentimentos de fascínio, identificação e familiaridade, mas também de preconceitos e incompreensões mútuas. Para mim é uma espécie de escavação das origens. Acabo descobrindo muito sobre nós e sobre o Brasil, mas também um pouquinho sobre os portugueses, que parecem tão próximos, mas que são bastante diferentes de nós. No caso do “Acácio”, explorei uma relação triangular entre Portugal, Angola e Brasil. Seu Acácio foi um artista, fotógrafo e antropólogo que, apesar do imenso talento que tinha, foi também um homem comum, com uma trajetória bastante recorrente na história de Portugal. Tendo passado o eldorado de sua vida numa colônia lusitana, teve amizades profundas com os povos locais, e ao mesmo tempo participava da política de exploração colonial, trabalhando para uma empresa de extração de diamantes. Depois da independência, seu Acácio retornou junto a milhares de portugueses ao país natal. Sentindo todas as dificuldades desse retorno pós-guerra, ele decidiu migrar com a família para o Brasil, mas jamais reviveu (nem se esqueceu) do esplendor que viveu em Angola. Foi ele e a esposa, Maria da Conceição, com as memórias e imagens, que me conduziram a esses mundos. “A cidade...”, por sua vez, aborda um contexto muito contemporâneo. O filme trata de um reencontro, de uma ligação profunda que surge entre duas amigas e da impossibilidade de estarem juntas. Isto acontece tendo como pano de fundo um momento em que, no auge da crise econômica portuguesa recente, durante alguns anos inverteu-se temporariamente o fluxo de imigração, que partia tradicionalmente da América Latina em direção à Europa. Passamos então a receber milhares de jovens portugueses emigrantes no Brasil. Esse contato revela uma relação intrigante, mais profunda e também mais próxima do que parece. Há aí um terreno riquíssimo de relações históricas e culturais, mas também um universo de conflitos, complexos e fantasias de ambos os lados, que são uma ótima matéria para o cinema.

Como se dá a relação desses estrangeiros com BH, cada vez em maior número, por sinal. Por que eles vêm para cá?

Em 2012, li uma notícia de jornal revelando que o então primeiro-ministro português Pedro Passos Coelho havia recomendado aos jovens portugueses que procurassem trabalho fora do país. Esse contexto gerou uma debandada da juventude de classe média, que se viu sem perspectivas de trabalho e sentia um esgotamento da vida no próprio país. Estive em Lisboa nesta altura, e percebi que a crise econômica combinava-se muitas vezes a uma crise existencial ou identitária nas pessoas. Era um momento de incertezas, que gerava em muitas pessoas uma vontade de ir-se embora, de sentir-se livre, de se apaixonar e se ver renovado fora do ambiente familiar, onde tem-se a sensação de que  as relações e a cidade onde se vive é demasiado conhecida. Foi quando conheci vários portugueses que chegaram a Belo Horizonte e comecei a criar este último filme. Durante o casting para encontrar a personagem da Teresa, uma das duas protagonistas, filmamos dezenas de meninas que desejavam deixar o país. O filme deve muito a elas, suas conversas e os sentimentos que nos revelaram.

Sua filmografia parece buscar esse olhar sobre o outro, sobre outra cultura diferente da sua, seja o interior mineiro ou o estrangeiro. De onde vem essa curiosidade? Você mesmo tem um lado nômade, nascida em Goiás e fixando residência em BH mais tarde.

Há sempre histórias e vivências muito pessoais que nos fazem sentir atraídos por certas pessoas e lugares. Passei a infância me mudando de uma cidade para outra até me fixar em Belo Horizonte. Talvez por isso essas pessoas nômades, sempre em busca de um lugar para si, me interessem particularmente, assim como o processo de se estabelecer e se encontrar em cada lugar. “A cidade...” é um filme sobre chegadas e partidas, sobre formas de ficar ou partir que marcam nossas vidas. Mas nos filmes anteriores eu sempre fui em busca de paisagens e pessoas distantes. Desta vez esse olhar distante chegou até mim e renovou minha forma de ver meu próprio lugar e a cidade que escolhi para viver.

“A Cidade...” é seu primeiro filme de ficção, mas percebe-se que você não abandonou os elementos do documentário na sua elaboração.

O filme me fez lidar com situações novas e bastante diferentes das anteriores, com um tempo maior de preparação, escolha de locações, figurino, roteiro. Por outro lado, foi quase um caminho natural depois do meu filme anterior, “A falta que me faz”, que termina com uma cena ficcional, mas criada por algo muito presente na vida da personagem, o desejo de partir. Dessa vez, acabei combinando uma paixão por retratar pessoas e suas experiências reais, mas com uma proposta assumidamente ficcional. O resultado é uma ficção, mas o processo foi mais documental do que se pode imaginar. Ou seja, construímos uma história inventada a partir de um trabalho de encenação intenso, mas com um rigor documental, lidando o tempo todo com situações não controladas, e com uma abertura para os movimentos e as experiências reais tanto de quem estava envolvido com o filme, quanto das pessoas da cidade.

Pelo título e pela sinopse, parece-me também uma homenagem a BH. No próximo ano, completam-se 20 anos de sua vinda para a cidade. O que a torna especial para você?

É verdade, já são 20 anos em Belo Horizonte! Nunca pensei em ficar tanto tempo num mesmo lugar. Acho que, afinal, o filme foi uma homenagem e uma breve despedida. Ele foi realizado em co-produção com a TerraTreme, de Portugal. Vim para Lisboa montá-lo e ainda não saí daqui, acabei me dividindo realmente entre os dois países. Tanto “Acácio” quanto “A Cidade...”  têm essa matéria em comum, os acasos (ou não) que criam movimentos ou permanências em nossas vidas. A cidade e seus personagens, que são na maior parte amigos próximos, são um elemento fundamental da história. Queria citar um amigo escritor mineiro, Marcílio França Castro. Ele define Belo Horizonte como eu gostaria de filmá-la, mas ainda não consegui: “Se eu tivesse que fazer um mapa afetivo de Belo Horizonte, começaria não exatamente por um endereço, um bairro, mas por algo como uma sensação geográfica, que me acompanha desde sempre: aquela rua arborizada, quieta, com um rumor de fundo; duas ou três casas desbotadas, os prédios concentrados em volta; uma cidade ordenada, disciplinada, meio humilde, desanimada – mas sutilmente alerta, esperando alguma coisa acontecer. Belo Horizonte me parece uma cidade melancólica, uma cidade resistente a novidades, à perturbação. Uma cidade que espera, mas ao mesmo tempo, rejeita o acontecimento”.


O cinema mineiro parece viver pequenos ciclos, com várias produções sendo lançadas e ganhando prêmios, e depois havendo alguns hiatos. Isso se deve à falta de uma política de fomento contínua ao setor?

O cinema mineiro, assim como todo cinema independente internacional, precisa contar com uma política sólida de incentivo à produção. No caso de Minas, temos a presença de ótimos cineastas, de filmes que são amplamente reconhecidos dentro e fora do país, mas cuja produção é diretamente afetada pelas interrupções ou insuficiência dos fundos que temos. “A cidade onde envelheço” e “Ellon não acredita na morte”, por exemplo, foram realizados com recursos da mesma edição do Filme em Minas, um programa fundamental para o incentivo dos filmes mineiros. A seleção dos dois filmes para a competitiva do Festival de Brasilia, entre 9 de mais de 130 filmes concorrentes, é também fruto do incentivo que tivemos para realizá-los. 


Como outros realizadores do setor, também está preocupada com o futuro do cinema brasileiro após a mudança de governo, especialmente depois de uma tentativa de acabar com o Ministério da Cultura?

Claro, tentar extinguir ou enfraquecer consideravelmente um Ministério que existe há 30 anos sem qualquer diálogo com a sociedade é um gesto assustador. A economia da cultura, que envolve produção, circulação e consumo de produtos e serviços culturais, é responsável por 7% do PIB mundial. Para falar especificamente de cinema, num estudo de 2012 publicado pelo jornal O Globo, o setor foi responsável pela criação de 110 mil empregos diretos e 120 mil indiretos. Para cada emprego direto no setor, pelo menos mais uma vaga indireta é criada. A pesquisa mostra que a indústria cinematográfica injeta mais de R$ 19 bilhões por ano na economia brasileira, com um faturamento bruto anual de R$ 42,8 bilhões. Isso sem contar com a relevância simbólica e social agregada, que também deve ser considerada como um índice significativos para o desenvolvimento de um país. Atingir esse potencial é também criar riqueza e inclusão social, além da inserção qualificada do país no cenário internacional. É evidente que há ajustes a fazer nas leis de cultura existentes, mas extinguir abruptamente um Ministério como este é evidentemente um retrocesso e não uma solução.
 

Você é uma das fundadoras do coletivo Teia, uma das produtoras de cinema mais importantes do Estado. Fale da importância desse grupo para o desenvolvimento do seu trabalho e da razão de ter saído dele.

Ter feito parte da criação da Teia e especialmente ter tido a chance de produzir três longas e dividir esse espaço com pessoas que admiro foi determinante para o meu trabalho. Depois deste período de dez anos juntos, acho que fechamos um ciclo enquanto grupo, até porque a Teia era um arquipélago que já abrigava algumas ilhas. Estas ilhas se tornaram independentes, mas ainda partilhamos a mesma casa e continuamos bastante próximos. Neste momento, por exemplo, a Anavilhana, fundada por mim, Luana Melgaço e Clarissa Campolina é uma das produtoras do novo filme do Sérgio Borges, sendo que a Luana e a Clarissa são respectivamente a produtora e a diretora assistente. Então, de alguma maneira, continuamos juntos, só que num outro momento da vida e da carreira de cada um.

 

Você abriu uma produtora (a Anavilhana) comandada por três mulheres, reunião de importantes realizadoras do cinema em Minas. Quais são os seus objetivos?
A Anavilhana existe desde 2005. Conseguimos criar desde então uma equipe permanente e uma rede de parceiros, que gerou um espaço propício para o encontro, a troca de experiências, a discussão criativa e política, e o suporte necessário para realizarmos nossos filmes, séries e instalações. Essa base de produção é fundamental para seguirmos nossos trabalhos e alimentar as intercepções criativas e os projetos de cada uma de nós.

Você está agora numa ilha de Portugal. Está fazendo um novo filme? Quais são os seus próximos projetos?
A ilha é apenas um curto intervalo de descanso entre um e outro grande projeto… Mas estou escrevendo uma série documental para televisão, que faz parte de um núcleo criativo composto por seis diferentes realizadores, de dentro e fora de Minas, que serão produzidos pela Anavilhana. A primeira fase da série será dedicada a alguns dos principais poetas brasileiros: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto. Os episódios irão percorrer espaços onde eles viveram no Rio de Janeiro, capital do país para onde migraram na primeira metade do século passado, associando textos e documentos de arquivo a um conjunto imagético de ambientes urbanos aparentemente alheios à literatura. Enquanto resgata esta memória e os resíduos da passagem dos escritores, a série buscará extrair, através do olhar dos moradores atuais, o que existe de lirismo dentro de um espaço da cidade que é ao mesmo tempo histórico e contemporâneo.