Chega a ser incômoda e exagerada a maneira como a protagonista do filme “A Livraria”, em cartaz nos cinemas, empreende uma luta silenciosa e solitária para instalar uma livraria numa pequena cidade inglesa da década de 50.
 
Apesar de pacato, o lugar carrega uma cultura moralista e elitista que vai, gradualmente, envenenando o projeto da livreira iniciante Florence Green (Emily Mortimer), a partir das ações de uma mulher, Violet, que pertence à alta classe (Patricia Clarkson).
 
Pesa contra ela o fato de ser viúva e forasteira, além de, numa leitura mais ampla, pretender educar, pelo livre acesso ao conhecimento, um vilarejo onde cada ação deve passar por instâncias “superiores”, sem dar direito à questionamentos.
 
As decisões de Violet refletem o funcionamento da sociedade: ela não pensa duas vezes em manipular pessoas e situações para levar ao fechamento da livraria, aos olhos de todos – e o único que parece ser rebelar é outro solitário, um militar reformado.
 
Como estamos falando da época da Guerra Fria (e há muitas menções aos conflitos passados), é possível enxergar ainda o perigo comunista em torno da chegada do desconhecido e da possibilidade de a comunidade ter a sua mente transformada.
 
Uma relação que, se tirarmos o componente geopolítico e adicionarmos a questão do empoderamento da mulher, se casa perfeitamente à proposta narrativa de “A Livraria”, baseado no livro homônimo de Penelope Fitzgerald, lançado em 1978.
 
O tom adotado pela diretora Isabela Coixet é de fábula, em que a ideia de bem e mal é acentuada com o intuito de passar uma mensagem moral. Florence é a heroína de bom coração que ganha o ódio daqueles que esperam acabar, até de forma ingênua, com o sonho dela.
 
A personagem é uma abnegada, que se recusa à luta em termos semelhante aos de seus oponentes. Do ponto de vista cristão, parece ser aquela que veio para sacrificar e servir de guia para um futuro em que as mulheres são fortes e independentes.
 
Um dos grandes desafios do filme é transformar, nos dias de hoje, essa inanição em altruísmo sem recorrer a tons dramáticos. A personagem, que exibe constantemente um leve sorriso, parece não enxergar o que está acontecendo, mas se justifica, ao final, pelo olhar de uma criança.